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Para os libertinos românticos, desses que ainda se apaixonam e "choram pitangas"...
Custei a assistir a esse filme, mas vamos lá... Há um tipo muito especial de mentira — a mentira encantadora, romântica, britânica — e ela passeia de mãos dadas pelas ruas floridas de Notting Hill, como uma mocinha com véu de noiva em tarde de domingo. O filme de Roger Michell é exatamente isso: uma mentira vestida de casamento.
Sabe aquela sensação de estar apaixonado por alguém totalmente fora do seu alcance, tipo a Monica Bellucci? Agora imagine que, por um capricho estatístico do universo — talvez uma distração momentânea de Deus enquanto checava seus e-mails —, essa pessoa responde ao seu “oi”. É mais ou menos isso que acontece em Um Lugar Chamado Notting Hill, um filme que basicamente pergunta: “E se a vida, por um segundo, fosse um roteiro escrito por alguém otimista demais?
A premissa é tão absurda quanto irresistível: uma estrela de Hollywood, dessas que fazem do batom um dogma, apaixona-se por um livreiro tímido, sem músculos, sem lábia, sem BMW, sem nada que impressione. Hugh Grant faz o papel de... Hugh Grant. Um inglês hesitante, desajeitado, com aquela cara de quem pede desculpas quando respira mais forte.
Até que um dia, como numa alucinação coletiva provocada por excesso de Earl Grey, entra na livraria dele ninguém menos que Julia Roberts. Sim, a estrela de Hollywood. A mulher que tem dentes mais simétricos que qualquer catedral gótica, cujo sorriso poderia gerar energia elétrica em países subdesenvolvidos. Linda, milionária, inacessível — ela olha para o livreiro como se ele fosse a última fatia de pão integral do planeta.
Essa história de romântica, que em qualquer esquina do Rio terminaria num chifre homérico e numa pensão alimentícia, é tratada com a solenidade dos casamentos reais. Em Notting Hill, o amor é um pastel de nata servido com chá. E é aí que mora a farsa deliciosa. Tudo é limpo, tudo é fofo, tudo tem cheiro de lavanda e é calibrado com açúcar mascavo.
O roteiro mostra o que se espera de um filme que passa religiosamente na Sessão da Tarde: situações inverossímeis embaladas com trilha sonora que parece feita por um DJ que estudou filosofia existencialista em Cambridge, mas largou tudo para tocar violão em metrô. A famosa frase “
I’m just a girl, standing in front of a boy…” é citada como se fosse Shakespeare. E a reação de Hugh Grant, pasmem, é levá-la a sério. Se uma balconista diz isso ao namorado desempregado, ele ri. Mas se a Julia Roberts diz para Hugh Grant, é poesia moderna.
O bairro de Notting Hill, por sua vez, é um personagem à parte. Um lugar que nunca cheira a urina e onde ninguém sofre de refluxo. Um paraíso de livrarias, mercados orgânicos e vizinhos excêntricos que parecem todos ter saído de um programa da BBC. Até o idiota do amigo de cueca, que em qualquer outra realidade seria espancado pela própria família, aqui é um alívio cômico aprovado pelo parlamento britânico.
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Um Lugar Chamado Notting Hill” é um filme para quem já sofreu por amor, mas prefere esquecer. É um conto de fadas com sotaque e fundo musical para tocar no enterro da sua ilusão. Um amor que só existe no cinema. E que bom que existe.
Porque fora da tela, nobres leitores, Julia Roberts jamais pisaria em Copacabana para se apaixonar por um livreiro da Siqueira Campos.