TD OFF - KAREN SPILLER
Enviado: 28 Jul 2022, 12:11
KAREN SPILLER — PAST REPORT
A vida não é um sonho.
O sonho é a região obscura e impalpável onde nos escondemos da vida.
(By Dante)
A memória é o que nos constrói, ela avança como neblina sobre uma cidade recém-fundada, o tempo desenha a imagem desfocada da nossa biografia. Somos episódios desconexos, com começo, meio e fim; alguns capítulos ficam inacabados; outros, mal-acabados. A certa altura da vida, nos tornamos museus de nós mesmos. Nesta página registro uma das minhas histórias, a primeira vez que me juntei a uma garota de programa dentro de um fórum, seu nome era Karen Spiller. Atente, eis agora que irá girar a fita do meu cinematógrafo.
Aconteceu em 2005, numa época em que ainda respeitavam a antiguidade de um forista, fase em que algumas garotas sabiam o valor de cativar qualquer escriba de peso que se destacasse pela qualidade dos relatos. Havia mulheres de fato inteligentes, foi quando aprendi que a verdadeira inteligência é construtiva; a genérica, não. Eram somente três os fóruns principais: um paulista, o HF e o GPBR.
Recebi a mensagem privada pelo HF, uma menina dizendo que adorava os meus textos, que gostaria de me conhecer sem compromisso caso eu me interessasse em marcar, deixou-me o telefone. Liguei, ela me mostrou fotos, contou-me ser profissional da área de saúde, que havia herdado uma dívida grande do ex-marido e por isso estava se iniciando no universo mundano. Perguntou-me se eu poderia orientá-la, fiz mais do que isso, marcamos no motel Palácio do Rei, na bucólica Tijuca, em um fim de tarde de um final da semana, para conversarmos e ficarmos juntos.
Quando abri a porta do quarto, vi entrar uma mulher delicada, branquinha, beirava os trinta anos, corpo bonito, tudo no lugar, seios pequenos e firmes, cintura fina, bumbum arrebitado, pernas torneadas, rosto atraente, cabelos curtinhos e acima dos ombros. Gostei do que vi. Ela abdicou da burocracia e me tascou um beijo na boca, beijo muito gostoso. Partimos direto para a comunhão dos corpos, uma trepada que guardei até hoje em uma estante nobre das minhas melhores recordações. Karen era dessas mulheres que ficam enxarcadas de tesão.
Consumado o ato, emendamos em uma longa conversa. Karen se mostrou articulada, me confirmou sua situação financeira crítica devido às dívidas contraídas em seu pelo ex-marido. Sem filhos, confessou que não tinha experiência como garota de programa, entrou naquilo como se embarcasse em uma aventura incerta, conheceu o fórum através de um dos seus primeiros clientes, passou a acompanhar, a ler e me descobriu assim. Disse que ficou fascinada, que percebeu em mim uma inteligência que se destacava pela escrita e ficou “obcecada” por me conhecer. Sempre modesto e considerando um exagero a tal fascinação da menina por mim, me propus a ajudá-la, mas coloquei as minhas regras, precisávamos ter absoluta sintonia para que ela tirasse proveito da associação que iríamos iniciar.
Como profissional de saúde no Rio, Karen não trabalhava todos os dias, morava em Friburgo e a família no bairro de Vista Alegre. Concordamos que seria mais produtivo que ficasse em minha casa, ela hesitou a princípio, mas aceitou ao constatar que seria mais prático e mais rápido para realizar um número maior de atendimentos. No meu chalé começamos o nosso romance e posso afirmar que Karen foi a namorada mais dedicada que tive. Doce, carinhosa, me dava presentes, cuidadosa comigo, me transmitia uma paz tão sedutora que a minha existência ficou marcada pela passagem dessa mulher.
Apesar de trabalhar com programas, me contagiava com uma confiança e com uma lealdade que nunca me permitiram enveredar pelo ciúme. Karen ouvia todos os meus conselhos, seguia as minhas orientações e, se não me admirava, fazia questão de demonstrar admiração por mim. Nunca discutimos ou brigamos, o diálogo prevalecia. Apesar do trabalho com sexo, exigia que reservássemos todos os dias um tempo todos para nós dois. Dormimos, acordamos na mesma cama por meses e nunca nos enjoamos. Foi minha companhia e companheira em tudo, do botequim a um concerto no Teatro Municipal, seu ecletismo a enriquecia culturalmente. Por várias vezes me coloquei à disposição para ajudá-la a liquidar as dívidas, ela jamais aceitou, alegava que seria um absurdo eu pagar débitos que foram contraídos pelo ex-marido dela.
Um dia me disse que queria fazer algo diferente, me convidou para uma boate em Copacabana, onde antigamente ficava o 2a2. Foi com Karen que conheci o swing e naquele período nos viciamos, frequentamos por muitos finais de semana. Não tinha tempo ruim para ela, por diversas ocasiões não me permitiu pagar a conta. Impressionava-me testemunhar como Karen guardava generosidade e desapego com o materialismo, não foi à toa que o marido a fez contrair dívidas em nome dele.
Eu e Karen alcançamos uma harmonia única, graças a isso ela fez muito dinheiro e fez rápido, isso em uma época em que não havia WhatsApp, o agendamento se restringia a ligações telefônicas. Os fóruns, a partir das minhas postagens, puxavam outras postagens, despertavam a curiosidade de outros foristas, foi a união do conhecimento com o mérito. Karen realmente tinha uma bela aparência e atendia muito bem, nada do que escrevi sobre ela foi exagero.
Houve um momento em que os fóruns implicaram com ela, cismaram com a fama quase instantânea que ganhou, situação que despertou a inveja da concorrência e a cobiça dos administradores. Com a habilidade e o traquejo político que possuía, Karen conseguiu superar esses obstáculos. Continuou ganhando dinheiro e quitou tudo que precisava quitar das dívidas que herdou.
Karen escolheu ser garota de programa por um período limitado, mas o acaso fez com que ela se tornasse a melhor companheira que tive em todos esses anos que participei de fóruns sobre sexo pago. Nenhuma moça de família com quem mantive relacionamentos a superou nas virtudes. Infelizmente, não foi o meu ponto final ou meu porto seguro, foi reticências... Estudiosa, passou em um concurso público para outro Estado, decidiu ir, me convidou, mas não pude aceitar e nos separamos.
Hoje, me surgiu a nostalgia, lembrei-me de Karen, do quanto ela me fez bem, do quanto me trouxe paz. Em certa ocasião que ela quis ficar perto da família, alugamos um apartamento na Vila da Penha, não me deixou assumir a responsabilidade do aluguel sozinho. Naquele apartamento que decoramos juntos, perto do Largo do Bicão, ficaram muitas das minhas melhores lembranças. A única vez que residi longe da minha adorada Tijuca. Foi algo tão bom que não sofri quando nos separamos de comum acordo, resignei-me. Mantivemos contato por algum tempo e depois nos perdemos. Soube que se casou no Paraná, fiquei feliz por ela.
Com o passar dos anos, apresentei ao fórum mais duas ou três meninas com quem me envolvi, mas não reencontrei a harmonia plena e a paz que vivi com Karen. Talvez, todas essas lembranças ressurjam agora por eu estar mais perto da hora inevitável de compartilhar a minha colheita, de dividir a solidão.
Escrevo como forma de homenageá-la. Não sei se restaram relatos sobre ela em algum fórum por aí. Karen foi a pessoa que mais me incentivou a escrever o meu primeiro livro, leu, revisou, me deu sugestões, mas não pode comparecer à noite de autógrafos, já havia partido. Ficou o vazio.
Um libertino nasce desses naufrágios, mas a esperança de reencontrar uma ilha onde ele possa habitar nunca cessa, todo libertino é um navio à deriva que primeiro rejeita ancorar e mais tarde sonha com um porto que o receba. Quando me recordo de Karen, é como se também ouvisse o corvo de Edgar Alan Paul me sentenciando: “nunca mais, nunca mais”.
A vida não é um sonho.
O sonho é a região obscura e impalpável onde nos escondemos da vida.
(By Dante)
A memória é o que nos constrói, ela avança como neblina sobre uma cidade recém-fundada, o tempo desenha a imagem desfocada da nossa biografia. Somos episódios desconexos, com começo, meio e fim; alguns capítulos ficam inacabados; outros, mal-acabados. A certa altura da vida, nos tornamos museus de nós mesmos. Nesta página registro uma das minhas histórias, a primeira vez que me juntei a uma garota de programa dentro de um fórum, seu nome era Karen Spiller. Atente, eis agora que irá girar a fita do meu cinematógrafo.
Aconteceu em 2005, numa época em que ainda respeitavam a antiguidade de um forista, fase em que algumas garotas sabiam o valor de cativar qualquer escriba de peso que se destacasse pela qualidade dos relatos. Havia mulheres de fato inteligentes, foi quando aprendi que a verdadeira inteligência é construtiva; a genérica, não. Eram somente três os fóruns principais: um paulista, o HF e o GPBR.
Recebi a mensagem privada pelo HF, uma menina dizendo que adorava os meus textos, que gostaria de me conhecer sem compromisso caso eu me interessasse em marcar, deixou-me o telefone. Liguei, ela me mostrou fotos, contou-me ser profissional da área de saúde, que havia herdado uma dívida grande do ex-marido e por isso estava se iniciando no universo mundano. Perguntou-me se eu poderia orientá-la, fiz mais do que isso, marcamos no motel Palácio do Rei, na bucólica Tijuca, em um fim de tarde de um final da semana, para conversarmos e ficarmos juntos.
Quando abri a porta do quarto, vi entrar uma mulher delicada, branquinha, beirava os trinta anos, corpo bonito, tudo no lugar, seios pequenos e firmes, cintura fina, bumbum arrebitado, pernas torneadas, rosto atraente, cabelos curtinhos e acima dos ombros. Gostei do que vi. Ela abdicou da burocracia e me tascou um beijo na boca, beijo muito gostoso. Partimos direto para a comunhão dos corpos, uma trepada que guardei até hoje em uma estante nobre das minhas melhores recordações. Karen era dessas mulheres que ficam enxarcadas de tesão.
Consumado o ato, emendamos em uma longa conversa. Karen se mostrou articulada, me confirmou sua situação financeira crítica devido às dívidas contraídas em seu pelo ex-marido. Sem filhos, confessou que não tinha experiência como garota de programa, entrou naquilo como se embarcasse em uma aventura incerta, conheceu o fórum através de um dos seus primeiros clientes, passou a acompanhar, a ler e me descobriu assim. Disse que ficou fascinada, que percebeu em mim uma inteligência que se destacava pela escrita e ficou “obcecada” por me conhecer. Sempre modesto e considerando um exagero a tal fascinação da menina por mim, me propus a ajudá-la, mas coloquei as minhas regras, precisávamos ter absoluta sintonia para que ela tirasse proveito da associação que iríamos iniciar.
Como profissional de saúde no Rio, Karen não trabalhava todos os dias, morava em Friburgo e a família no bairro de Vista Alegre. Concordamos que seria mais produtivo que ficasse em minha casa, ela hesitou a princípio, mas aceitou ao constatar que seria mais prático e mais rápido para realizar um número maior de atendimentos. No meu chalé começamos o nosso romance e posso afirmar que Karen foi a namorada mais dedicada que tive. Doce, carinhosa, me dava presentes, cuidadosa comigo, me transmitia uma paz tão sedutora que a minha existência ficou marcada pela passagem dessa mulher.
Apesar de trabalhar com programas, me contagiava com uma confiança e com uma lealdade que nunca me permitiram enveredar pelo ciúme. Karen ouvia todos os meus conselhos, seguia as minhas orientações e, se não me admirava, fazia questão de demonstrar admiração por mim. Nunca discutimos ou brigamos, o diálogo prevalecia. Apesar do trabalho com sexo, exigia que reservássemos todos os dias um tempo todos para nós dois. Dormimos, acordamos na mesma cama por meses e nunca nos enjoamos. Foi minha companhia e companheira em tudo, do botequim a um concerto no Teatro Municipal, seu ecletismo a enriquecia culturalmente. Por várias vezes me coloquei à disposição para ajudá-la a liquidar as dívidas, ela jamais aceitou, alegava que seria um absurdo eu pagar débitos que foram contraídos pelo ex-marido dela.
Um dia me disse que queria fazer algo diferente, me convidou para uma boate em Copacabana, onde antigamente ficava o 2a2. Foi com Karen que conheci o swing e naquele período nos viciamos, frequentamos por muitos finais de semana. Não tinha tempo ruim para ela, por diversas ocasiões não me permitiu pagar a conta. Impressionava-me testemunhar como Karen guardava generosidade e desapego com o materialismo, não foi à toa que o marido a fez contrair dívidas em nome dele.
Eu e Karen alcançamos uma harmonia única, graças a isso ela fez muito dinheiro e fez rápido, isso em uma época em que não havia WhatsApp, o agendamento se restringia a ligações telefônicas. Os fóruns, a partir das minhas postagens, puxavam outras postagens, despertavam a curiosidade de outros foristas, foi a união do conhecimento com o mérito. Karen realmente tinha uma bela aparência e atendia muito bem, nada do que escrevi sobre ela foi exagero.
Houve um momento em que os fóruns implicaram com ela, cismaram com a fama quase instantânea que ganhou, situação que despertou a inveja da concorrência e a cobiça dos administradores. Com a habilidade e o traquejo político que possuía, Karen conseguiu superar esses obstáculos. Continuou ganhando dinheiro e quitou tudo que precisava quitar das dívidas que herdou.
Karen escolheu ser garota de programa por um período limitado, mas o acaso fez com que ela se tornasse a melhor companheira que tive em todos esses anos que participei de fóruns sobre sexo pago. Nenhuma moça de família com quem mantive relacionamentos a superou nas virtudes. Infelizmente, não foi o meu ponto final ou meu porto seguro, foi reticências... Estudiosa, passou em um concurso público para outro Estado, decidiu ir, me convidou, mas não pude aceitar e nos separamos.
Hoje, me surgiu a nostalgia, lembrei-me de Karen, do quanto ela me fez bem, do quanto me trouxe paz. Em certa ocasião que ela quis ficar perto da família, alugamos um apartamento na Vila da Penha, não me deixou assumir a responsabilidade do aluguel sozinho. Naquele apartamento que decoramos juntos, perto do Largo do Bicão, ficaram muitas das minhas melhores lembranças. A única vez que residi longe da minha adorada Tijuca. Foi algo tão bom que não sofri quando nos separamos de comum acordo, resignei-me. Mantivemos contato por algum tempo e depois nos perdemos. Soube que se casou no Paraná, fiquei feliz por ela.
Com o passar dos anos, apresentei ao fórum mais duas ou três meninas com quem me envolvi, mas não reencontrei a harmonia plena e a paz que vivi com Karen. Talvez, todas essas lembranças ressurjam agora por eu estar mais perto da hora inevitável de compartilhar a minha colheita, de dividir a solidão.
Escrevo como forma de homenageá-la. Não sei se restaram relatos sobre ela em algum fórum por aí. Karen foi a pessoa que mais me incentivou a escrever o meu primeiro livro, leu, revisou, me deu sugestões, mas não pode comparecer à noite de autógrafos, já havia partido. Ficou o vazio.
Um libertino nasce desses naufrágios, mas a esperança de reencontrar uma ilha onde ele possa habitar nunca cessa, todo libertino é um navio à deriva que primeiro rejeita ancorar e mais tarde sonha com um porto que o receba. Quando me recordo de Karen, é como se também ouvisse o corvo de Edgar Alan Paul me sentenciando: “nunca mais, nunca mais”.