ALEGRIA DO CATETE - NOITES PERPÉTUAS
Enviado: 06 Ago 2022, 11:34
Existem noites que são perpétuas, um libertino é forjado nessas noites intermináveis, atravessando a cidade, farejando feromônios, desejando o roçar de peles. Há uma fase da vida em que o Sol é um incômodo frio e a Lua uma carícia que arde. Foi uma dessas noites, nos meados da década de 80, que descobri um recanto que me proporcionaria incontáveis encontros sexuais, descobri por ouvir falar, peguei o metrô, desembarquei no Largo do Machado, fui caminhando incerto pela Rua do Catete, perguntei num boteco se conheciam um forró naquelas redondezas, engoli um fogo paulista e encontrei o templo onde uma parte das minhas melhores noites se perpetuariam na memória.
Alegria do Catete, que nome poderia ser melhor para um forró, para um bate coxas como chamavam na época? Instalado em um prédio baixo, onde há pouco tempo funcionava uma loja do Ponto Frio, na esquina da Rua do Catete com Buarque de Macedo. Quando entrei pela primeira vez, me deparei com uma multidão dançando ao som do triângulo e da sanfona e um mar de mulheres predominantemente nordestinas e homens que não negavam a origem simples. Atravessei o salão vestido de príncipe, denunciando para os olhos desconfiados que me seguiam que aquele não era o meu habitat natural. No início senti algum desconforto, depois não mais me importei, percebi que a minha pompa no vestir e na postura me abriria um o harém onde eu me tornaria sultão por um bom período.
Eu não tinha carro (meus pais eram desses que diziam que eu só teria carro quando pudesse comprar), minha grana podia ser contada em poucas notas heroicas na carteira surrada, mas eu sabia me vestir, estava no auge da energia de um universitário bem nutrido, sabia me expressar com fluência, começava a aprender a arte de seduzir e aquele forró seria a minha primeira grande escola, de sexo e de vida.
Saía de casa empolgado, pegava o metrô, a testosterona explodia pelo meu corpo e eu não abandonava a arena sem antes conquistar uma fêmea qualquer. A volta se mostrava mais complicada, saía do forró com o céu refletindo os primeiros raios de luz, andava até a Praia do Flamengo e esperava algum ônibus que me levasse de volta à bucólica Tijuca. Muitas vezes enfrentei a solidão da madrugada esperando a condução, os perigos da cidade eram menores, mas a melancolia da dureza pecuniária que me impedia de pegar um táxi sempre foi igual.
Sim, fui um tímido e os forrós me ajudaram a superar um pouco a trava do acanhamento. Às vezes eu intercalava a frequência nos forrós com idas a boate Circus no Leblon, dois mundos paralelos e heterogêneos. Na Circus, não pegava ninguém; no forró, me tornei rei. Havia ocasiões em que eu entrava no Alegria do Catete e mulheres colocavam bilhetinhos no meu bolso, me encaravam despudoradamente, ofereciam-se exibindo a libido devassa. Precisei eleger motéis próximos que coubessem no meu orçamento, encontrei o Alameda (na rua Cândido Mendes) e outro muito precário que havia na rua Bento Lisboa. Quando a minha carteira estava mais recheada, eu lambia os beiços no Hotel Único, que ficava praticamente ao lado do forró.
No princípio, eu contava o número de mulheres que com as quais me deitei, foi quando iniciei minha coleção de coitos até perder a conta. Não demorei para conhecer mais dois forrós que fariam das minhas noites de fim de semana um campo de caça farto de lebres. Os forrós me fizeram homem, eu não recebia patrocínio da família, sempre precisei apelar para a minha engenhosidade, para o meu espírito de aventura e à minha ausência de preconceitos. Meus orgasmos não se originavam no dinheiro, mas em estratégias. Jovem, eu possuía uma disposição inabalável, varava madrugadas seguidas, chegava em casa com o sol no rosto, me viciei na arte de amar.
Outros tempos... Fui uma espécie de Indiana Jones libertino. Durante o dia, estudava e explorava os sebos atrás de toda espécie de livros (antes da Estante Virtual); à noite, rompia becos e penumbras atrás de qualquer tipo de mulher que eu pudesse tentar conquistar e levar para a cama.
Na década de 90 surgiu o forró do Asa Branca, na Lapa. Minha existência ainda se equilibrava na escassez de dinheiro, não era incomum me postar na porta do local para pegar um dos ingressos gratuitos que eles distribuíam, precisava economizar de todas as maneiras para conseguir consumar o sexo com alguma mulher que eu conhecesse na noite. Que infinidade de mulheres eu provei numa época em que as putas não me eram acessíveis. A dureza desenvolveu a criatividade que me permitiu curtir a vida, mesmo diante das limitações de grana.
Eu me moldei sentindo minhas pernas cansarem sobre meio-fio enquanto aguardava a esperança de uma condução improvável, amadureci sacudindo em ônibus pelas madrugadas, transando com empregadas domésticas e me apaixonando por elas, percebendo que ter dinheiro é bom, mas a falta dele estimula o cérebro a buscar soluções. De lá para cá cultivei o vil metal e envelheci, mas envelhecer é inevitável, o ruim é testemunhar um mundo que envelhece mal.
Alegria do Catete, que nome poderia ser melhor para um forró, para um bate coxas como chamavam na época? Instalado em um prédio baixo, onde há pouco tempo funcionava uma loja do Ponto Frio, na esquina da Rua do Catete com Buarque de Macedo. Quando entrei pela primeira vez, me deparei com uma multidão dançando ao som do triângulo e da sanfona e um mar de mulheres predominantemente nordestinas e homens que não negavam a origem simples. Atravessei o salão vestido de príncipe, denunciando para os olhos desconfiados que me seguiam que aquele não era o meu habitat natural. No início senti algum desconforto, depois não mais me importei, percebi que a minha pompa no vestir e na postura me abriria um o harém onde eu me tornaria sultão por um bom período.
Eu não tinha carro (meus pais eram desses que diziam que eu só teria carro quando pudesse comprar), minha grana podia ser contada em poucas notas heroicas na carteira surrada, mas eu sabia me vestir, estava no auge da energia de um universitário bem nutrido, sabia me expressar com fluência, começava a aprender a arte de seduzir e aquele forró seria a minha primeira grande escola, de sexo e de vida.
Saía de casa empolgado, pegava o metrô, a testosterona explodia pelo meu corpo e eu não abandonava a arena sem antes conquistar uma fêmea qualquer. A volta se mostrava mais complicada, saía do forró com o céu refletindo os primeiros raios de luz, andava até a Praia do Flamengo e esperava algum ônibus que me levasse de volta à bucólica Tijuca. Muitas vezes enfrentei a solidão da madrugada esperando a condução, os perigos da cidade eram menores, mas a melancolia da dureza pecuniária que me impedia de pegar um táxi sempre foi igual.
Sim, fui um tímido e os forrós me ajudaram a superar um pouco a trava do acanhamento. Às vezes eu intercalava a frequência nos forrós com idas a boate Circus no Leblon, dois mundos paralelos e heterogêneos. Na Circus, não pegava ninguém; no forró, me tornei rei. Havia ocasiões em que eu entrava no Alegria do Catete e mulheres colocavam bilhetinhos no meu bolso, me encaravam despudoradamente, ofereciam-se exibindo a libido devassa. Precisei eleger motéis próximos que coubessem no meu orçamento, encontrei o Alameda (na rua Cândido Mendes) e outro muito precário que havia na rua Bento Lisboa. Quando a minha carteira estava mais recheada, eu lambia os beiços no Hotel Único, que ficava praticamente ao lado do forró.
No princípio, eu contava o número de mulheres que com as quais me deitei, foi quando iniciei minha coleção de coitos até perder a conta. Não demorei para conhecer mais dois forrós que fariam das minhas noites de fim de semana um campo de caça farto de lebres. Os forrós me fizeram homem, eu não recebia patrocínio da família, sempre precisei apelar para a minha engenhosidade, para o meu espírito de aventura e à minha ausência de preconceitos. Meus orgasmos não se originavam no dinheiro, mas em estratégias. Jovem, eu possuía uma disposição inabalável, varava madrugadas seguidas, chegava em casa com o sol no rosto, me viciei na arte de amar.
Outros tempos... Fui uma espécie de Indiana Jones libertino. Durante o dia, estudava e explorava os sebos atrás de toda espécie de livros (antes da Estante Virtual); à noite, rompia becos e penumbras atrás de qualquer tipo de mulher que eu pudesse tentar conquistar e levar para a cama.
Na década de 90 surgiu o forró do Asa Branca, na Lapa. Minha existência ainda se equilibrava na escassez de dinheiro, não era incomum me postar na porta do local para pegar um dos ingressos gratuitos que eles distribuíam, precisava economizar de todas as maneiras para conseguir consumar o sexo com alguma mulher que eu conhecesse na noite. Que infinidade de mulheres eu provei numa época em que as putas não me eram acessíveis. A dureza desenvolveu a criatividade que me permitiu curtir a vida, mesmo diante das limitações de grana.
Eu me moldei sentindo minhas pernas cansarem sobre meio-fio enquanto aguardava a esperança de uma condução improvável, amadureci sacudindo em ônibus pelas madrugadas, transando com empregadas domésticas e me apaixonando por elas, percebendo que ter dinheiro é bom, mas a falta dele estimula o cérebro a buscar soluções. De lá para cá cultivei o vil metal e envelheci, mas envelhecer é inevitável, o ruim é testemunhar um mundo que envelhece mal.