ABABELE — A IDADE MÉDIA DA LIBERTINAGEM
Enviado: 17 Jul 2023, 15:47

“ABABELE — SÓ MULATAS”
Pelos idos da década de 80, estávamos, eu e o meu camarada Teixeirinha, sentados num banco da Praça Saenz quando nos deparamos com esse anúncio nos classificados do finado Jornal do Brasil.
Atentem que nessa época os anúncios não possuíam fotos, escolhíamos a presa pelas descrições oferecidas nas poucas linhas escritas pelo anunciante. Vivíamos um tempo lúdico da putaria, em que a imaginação complementava a emoção sexual. Ainda não éramos viciados no coito mecânico e repetitivo, éramos exploradores com a adrenalina em nível máximo e a testosterona vazando pelos olhos. O sexo tinha mistério. Estávamos na idade média da libertinagem.
— Pô, Dante. É chocolate, é chocolate. Vambora.
Teixeirinha se entusiasmou, amava mulatas e negras, que também faziam parte da minha preferência. A Ababele ficava em Copacabana, em um prédio repleto de privês na esquina da Nossa Senhora com a Siqueira Campos, em frente a Praça dos Paraíbas. Por esses dias, perguntei a um amigo se aquele prédio ainda abrigava puteiros e a resposta foi positiva. Depois de tantos anos, ainda abrigar privês faz dele um prédio icônico.
Pegamos o ônibus da linha 413 (Usina / Copa) e partimos para a missão. Descemos na Barata Ribeiro e caminhamos até o endereço de destino. Atravessamos a portaria do prédio sem importunação de qualquer pessoa, embarcamos no elevador, alcançamos o andar indicado e tocamos a campainha...
Abriram a porta, um travesti nos dá boas-vindas. Pela fresta da porta, parecia uma sala só de travestis. Nos anos 80 existiam essas salas temáticas. Perguntamos se ali era a Ababele, sala errada. Educada, a trans nos apontou o número correto.
— Porra! Que isso, Dante?! — Teixeirinha tinha uma voz anasalada que fazia dele uma réplica do Pato Donald, suas exclamações nunca anunciavam um embaraço, ficavam sempre no tom da comédia.
Nova tentativa, toco a campainha, a porta se abre e uma morena jambo descomunal nos recebe. Finalmente, entramos na Ababele, o mundo encantado das mulatas. Nem o Sargenteli imaginaria uma sala como aquela, uma versão erótica e exótica da Kopenhagen.
Apresentações feitas na recepção da sala. Teixeirinha escolheu primeiro, uma mulata estilo fofolete, e foi para a cabine. Fiquei na dúvida entre duas mulatas lindíssimas (sim, existiam mais garotas bonitas nesses tempos remotos), me decidi por uma de cabelo curto que me lançou um sorriso hipnótico.
A cabine possuía dimensões minúsculas com a maca posicionada junto a divisória. Cláudia, a mulata, tira o biquíni e revela a imoralidade excitante de suas curvas. Nos anos 80, muito jovem, meu pau ficava duro até encarando prego na parede. Quando me vi diante das dimensões esculturais da Cláudia, quase me lancei à ejaculação precoce. Eu ainda estava no período dos meus primeiros contatos sexuais.
Na cabine ao lado, eu conseguia ouvir os gritos do Teixeirinha professando palavrões e gemidos de um torturado da Ditadura.
— Caralho! Caralho! Vai! Continua! Caralho! Para! Para! — com certeza, a sala inteira acompanhava as reações histéricas e a autonarração do desempenho do meu camarada.
Tempos em que eu gozava rápido e aproveitava pouco. Foi percebendo isso que comecei a migrar para as Termas, lugares onde eu poderia curtir a contemplação antes de me lançar ao sexo. Em Copa, existiam duas Termas que frequentei regularmente, a Monte Carlo e a L’uomo. A primeira resiste, a segunda fechou.
Foi tudo breve. Quando nos demos conta, estávamos na Praça dos Paraíbas degustando churros e vendo os classificados de O Globo. A necessidade de gozar se fazia contínua, nossa juventude tinha a natureza de um coelho em fase de reprodução. Foi quando avistamos o anúncio da Termas 2001, ficava na Travessa Miracema, no Meier. Sem saber que ônibus deveríamos pegar, rachamos um táxi. A história continua...