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O DILÚVIO GAÚCHO

Enviado: 17 Mai 2024, 09:13
por membro
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Nasci no Rio Grande do Sul em uma manhã gélida de inverno. Alguns anos depois, a minha família mudou-se para o Rio de Janeiro, quando eu ainda estava no início da infância, não consegui trazer comigo o charme do sotaque sulista. Por sorte, tudo mais que é gaúcho fixou-se no meu espírito, inclusive o chimarrão. Desde então, vivo o choque de identidades entre o meu sangue gaúcho e a minha alma carioca. O que posso afirmar é que, no saldo final, a alma prevaleceu sobre o sangue. Sou um carioca naturalizado.

Vivi em criança entre duas cidades vizinhas: a que nasci, que se chama Lajeado; e a que eu morava, que se chama Arroio do Meio. Duas das cidades mais arrasadas pelo último dilúvio. Tenho parentes que perderam tudo, cujas casas foram engolidas pela água chegando acima do telhado. Gente que já havia construído a vida e agora se vê sem nada, vitimados por uma condenação cósmica, todos destituídos do direito à defesa. Gaúchos, porém, são fortes. Falam em reconstruir, em reconstruírem-se.

Adulto, no fim da década de 80, decidi mergulhar nas minhas raízes e voltei a morar no interior do Rio Grande do Sul, em Arroio do Meio. Fiz concurso para um cargo relevante da prefeitura, fui aprovado e me instalei na naquela terra por um tempo. Conquistei uma namorada loira de ascendência alemã, morei na antiga casa da minha família paterna e descobri uma paz que nunca mais consegui reaver. Meu sangue reconheceu sua origem e passou a fluir no ritmo plácido do rio Taquari.

Como citei, no entanto, sempre vivi o confronto entre o gaúcho e o carioca dentro de mim. Após alguns meses, o carioca sobrepôs sua vontade, larguei a vida pacata do interior dos pampas, retornei ao purgatório da beleza e do caos e à bucólica Tijuca. Passei anos pensando se me arrependeria dessa escolha.

Então, de repente, os noticiários me dizem que todas as minhas referências gaúchas, o meu berço, as minhas raízes, tudo foi engolfado pelo, agora feroz, rio Taquari. Sem clemência. Tudo devastado. A ponte que eu atravessava para ir de Arroio do Meio à cidade de Lajeado desapareceu, levada pelas águas implacáveis que transbordaram sem rumo. É quando o meu sangue gaúcho me faz pesaroso, desalojado de um paraíso para o qual sempre me imaginei retornar.

A alma é carioca, mas digo que as minhas melhores virtudes são gaúchas. Uma das minhas maiores paixões foi uma mulher gaúcha. A genética me empurra para revolucionar o status quo, provoco reações na morbidez pretensiosa dos caretas, desperto a ira ressentida dos lunáticos, me fiz livre desde muito jovem e, contraditoriamente, guardo uma formalidade que também veio com essa herança do Sul. Batizei esses aspectos da minha personalidade como o “Fator Pereio” — em homenagem ao icônico ator falecido recentemente.

Após me formar na área de educação, decidi também me tornar jornalista inspirado por um gaúcho chamado Tarso de Castro, um dos fundadores do jornal “O Pasquim”. A minha admiração por esse personagem é imensa e me fez encontrar um ofício que muito contribuiu para a minha realização pessoal. Em Porto Alegre, conheci o Luís Fernando Veríssimo, confirmei a certeza de que desejava ser escritor, escrevi cinco livros e conquistei prêmios literários. Meus melhores modelos humanos são gaúchos.

A região em que nasci é conhecida como Vale do Taquari e não há o que não tenha sido tragado pela fúria do rio. A reconstrução será muito difícil, penosa. A população da área é de gente simples, que passará a cultivar receios sobre o futuro do território onde habitam. Sabe aquelas cidades que orbitam em torno de uma praça e de uma igreja? Assim era Arroio do Meio, assim era Lajeado, Roca Sales, Encantado, Muçum, Estrela etc.

Tudo muito triste, muito devastador. Os gaúchos não conseguirão se reerguer sem amparo. :abraco:

*As fotos são minhas.


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Re: O DILÚVIO GAÚCHO

Enviado: 17 Mai 2024, 10:12
por Barbosa82
Dante escreveu: 17 Mai 2024, 09:13 Imagem


Nasci no Rio Grande do Sul em uma manhã gélida de inverno. Alguns anos depois, a minha família mudou-se para o Rio de Janeiro, quando eu ainda estava no início da infância, não consegui trazer comigo o charme do sotaque sulista. Por sorte, tudo mais que é gaúcho fixou-se no meu espírito, inclusive o chimarrão. Desde então, vivo o choque de identidades entre o meu sangue gaúcho e a minha alma carioca. O que posso afirmar é que, no saldo final, a alma prevaleceu sobre o sangue. Sou um carioca naturalizado.

Vivi em criança entre duas cidades vizinhas: a que nasci, que se chama Lajeado; e a que eu morava, que se chama Arroio do Meio. Duas das cidades mais arrasadas pelo último dilúvio. Tenho parentes que perderam tudo, cujas casas foram engolidas pela água chegando acima do telhado. Gente que já havia construído a vida e agora se vê sem nada, vitimados por uma condenação cósmica, todos destituídos do direito à defesa. Gaúchos, porém, são fortes. Falam em reconstruir, em reconstruírem-se.

Adulto, no fim da década de 80, decidi mergulhar nas minhas raízes e voltei a morar no interior do Rio Grande do Sul, em Arroio do Meio. Fiz concurso para um cargo relevante da prefeitura, fui aprovado e me instalei na naquela terra por um tempo. Conquistei uma namorada loira de ascendência alemã, morei na antiga casa da minha família paterna e descobri uma paz que nunca mais consegui reaver. Meu sangue reconheceu sua origem e passou a fluir no ritmo plácido do rio Taquari.

Como citei, no entanto, sempre vivi o confronto entre o gaúcho e o carioca dentro de mim. Após alguns meses, o carioca sobrepôs sua vontade, larguei a vida pacata do interior dos pampas, retornei ao purgatório da beleza e do caos e à bucólica Tijuca. Passei anos pensando se me arrependeria dessa escolha.

Então, de repente, os noticiários me dizem que todas as minhas referências gaúchas, o meu berço, as minhas raízes, tudo foi engolfado pelo, agora feroz, rio Taquari. Sem clemência. Tudo devastado. A ponte que eu atravessava para ir de Arroio do Meio à cidade de Lajeado desapareceu, levada pelas águas implacáveis que transbordaram sem rumo. É quando o meu sangue gaúcho me faz pesaroso, desalojado de um paraíso para o qual sempre me imaginei retornar.

A alma é carioca, mas digo que as minhas melhores virtudes são gaúchas. Uma das minhas maiores paixões foi uma mulher gaúcha. A genética me empurra para revolucionar o status quo, provoco reações na morbidez pretensiosa dos caretas, desperto a ira ressentida dos lunáticos, me fiz livre desde muito jovem e, contraditoriamente, guardo uma formalidade que também veio com essa herança do Sul. Batizei esses aspectos da minha personalidade como o “Fator Pereio” — em homenagem ao icônico ator falecido recentemente.

Após me formar na área de educação, decidi também me tornar jornalista inspirado por um gaúcho chamado Tarso de Castro, um dos fundadores do jornal “O Pasquim”. A minha admiração por esse personagem é imensa e me fez encontrar um ofício que muito contribuiu para a minha realização pessoal. Em Porto Alegre, conheci o Luís Fernando Veríssimo, confirmei a certeza de que desejava ser escritor, escrevi cinco livros e conquistei prêmios literários. Meus melhores modelos humanos são gaúchos.

A região em que nasci é conhecida como Vale do Taquari e não há o que não tenha sido tragado pela fúria do rio. A reconstrução será muito difícil, penosa. A população da área é de gente simples, que passará a cultivar receios sobre o futuro do território onde habitam. Sabe aquelas cidades que orbitam em torno de uma praça e de uma igreja? Assim era Arroio do Meio, assim era Lajeado, Roca Sales, Encantado, Muçum, Estrela etc.

Tudo muito triste, muito devastador. Os gaúchos não conseguirão se reerguer sem amparo. :abraco:

*As fotos são minhas.


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Muito triste mesmo ver o q o povo do RS tá passando e o quão devastadas estão essas cidades 😢😢 esperamos q tudo volte ao normal o quanto antes

Re: O DILÚVIO GAÚCHO

Enviado: 17 Mai 2024, 10:41
por Tenista
O povo gaucho passa por uma tragedia ambiental jamais vista , temos o dever de ajudar nossos irmãos brasileiros. Muitos desafios ainda por vir mas com certeza com ajuda e amparo o Estado irá se reerguer ! Deixo aqui meu abraço e minha contribuição logística. Ainda ha muito o que fazer ! 🤝

Re: O DILÚVIO GAÚCHO

Enviado: 17 Mai 2024, 10:52
por membro
Tenista escreveu: 17 Mai 2024, 10:41 O povo gaucho passa por uma tragedia ambiental jamais vista , temos o dever de ajudar nossos irmãos brasileiros. Muitos desafios ainda por vir mas com certeza com ajuda e amparo o Estado irá se reerguer ! Deixo aqui meu abraço e minha contribuição logística. Ainda ha muito o que fazer ! 🤝

Valeu, Tenista. É isso aí. :palmas:

Re: O DILÚVIO GAÚCHO

Enviado: 17 Mai 2024, 10:54
por membro
Barbosa82 escreveu: 17 Mai 2024, 10:12 Muito triste mesmo ver o q o povo do RS tá passando e o quão devastadas estão essas cidades 😢😢 esperamos q tudo volte ao normal o quanto antes.
É tudo muito trágico, Barbosa. Quem, como eu, conhece aquela realidade, é dureza.

Re: O DILÚVIO GAÚCHO

Enviado: 17 Mai 2024, 11:20
por Felipe_BR
Dante escreveu: 17 Mai 2024, 09:13 A região em que nasci é conhecida como Vale do Taquari e não há o que não tenha sido tragado pela fúria do rio. A reconstrução será muito difícil, penosa. A população da área é de gente simples, que passará a cultivar receios sobre o futuro do território onde habitam. Sabe aquelas cidades que orbitam em torno de uma praça e de uma igreja? Assim era Arroio do Meio, assim era Lajeado, Roca Sales, Encantado, Muçum, Estrela etc.
Estas cidades inundaram 3 vezes em menos de um ano. Situação dramática agora, com destruição extensa. Falam em mudar algumas delas de lugar porque, imaginemos, reconstruir ao lado do rio e acontecer de novo depois de tanto esforço de reconstrução.

Re: O DILÚVIO GAÚCHO

Enviado: 17 Mai 2024, 12:03
por membro
Felipe_BR escreveu: 17 Mai 2024, 11:20
Estas cidades inundaram 3 vezes em menos de um ano. Situação dramática agora, com destruição extensa. Falam em mudar algumas delas de lugar porque, imaginemos, reconstruir ao lado do rio e acontecer de novo depois de tanto esforço de reconstrução.
Sim, Felipe. Já no fim do ano passado, alguns parentes meus me comunicaram estragos em suas casas. Não puderam nem respirar, enfrentam ainda este último dilúvio.

Re: O DILÚVIO GAÚCHO

Enviado: 18 Mai 2024, 11:22
por membro