ENCONTROS DO TINDER — DEU MATCH!
Enviado: 01 Jun 2025, 00:32

Envelheci — o que já é, por si só, uma espécie de doença incurável. Na minha idade, a gente não ama: escapa da morte com um pouco de sorte e um Omeprazol genérico. Mas fiz o que nenhum homem deveria fazer depois de certa idade: entrei no Tinder. Sim, o Tinder! Aquilo não é um aplicativo, é um suicídio social.
Foi ali que ela apareceu — Yasmim. Vinte e três anos. Vinte e três! Ou seja: sem rugas, sem memória, sem passado. Era jovem, fresca, e falava como se o mundo fosse uma peça de teatro onde só ela tinha o papel principal. Eu, um velho vencido pelo próprio hálito fui tomado por uma esperança patética. O desejo não envelhece — o que envelhece é o corpo que precisa carregá-lo.
Marcamos um encontro na Quinta da Boa Vista. Um lugar cheio de árvores e casais. Odeio casais. Nada mais obsceno do que dois apaixonados num parque. A paixão é indecente, sobretudo quando vista de fora. Mas fui. Cheguei cedo, naturalmente. Os idosos chegam cedo a tudo: consultas, enterros, decepções.
Ela chegou com trinta minutos de atraso — e com uma roupa tão indecente que até os gatos se esconderam no mato. Usava uma blusa transparente exibindo um micro top e uma calça que era quase uma provocação divina. Sorriu como se eu fosse uma piada cósmica. Dei-lhe um beijo no rosto e chamei aquilo de destino. Ela me chamou de “meu velhinho”. Era como ouvir um tiro disparado dentro da alma. E eu, num misto de fascínio e autoconsciência, percebi que aquele encontro já nascia com mais ironia do que futuro.
Andamos pelo parque. Quer dizer, ela andava, eu ia tentando correr atrás dela. Falava sobre teatro, chacras, signos e energia cósmica. Eu só pensava no meu intestino preso e na próxima consulta no cardiologista. Em certo momento, ela me contou de uma peça que havia encenado em que representava a “memória coletiva de uma cidade em crise”. Eu tentei acompanhar, mas me sentia como um rádio AM tentando captar um podcast em sueco.
A certa altura, mencionei que estava lendo um ensaio sobre Spinoza — uma tentativa patética de parecer intelectualmente interessante. Ela disse que “precisava mergulhar mais na filosofia ocidental”, e por um breve segundo pensei que havia estabelecido algum tipo de conexão. Mas então ela tirou do bolso um cristal e passou a girá-lo entre os dedos como quem invoca alguma frequência que eu, definitivamente, não alcançava.
Ela perguntou meu signo. Respondi “pressão alta com ascendente em labirintite”. Riu de novo. Achei que estava indo bem.
Quando tentei tirar uma foto de nós dois, como prova do milagre — como quem captura um fantasma —, abri a câmera, acionei a lanterna sem querer, e fiquei cinco minutos iluminando a cara dela como se fosse um interrogatório da KGB. Gaguejei desculpas. Ela achou engraçado. Eu quis morrer.
Mas o golpe final veio quando ela disse, com a leveza dos desalmados, que tinha um “ritual de cura sonora” e precisava ir. Fiquei imaginando um coral de taças tocando Beethoven com sinos de vento. Foi embora de patinete, veja bem — de patinete! — como se fosse um anjo moderno. Acenou para mim com os dedos pintados de verde-limão e sumiu. Fiquei ali, parado, sentindo o peso do tempo nas vértebras e a humilhação nas tripas.
Sentei-me num banco e contemplei o lago. Um pato me olhou com pena, como se dissesse: o desejo, meu caro, é uma crueldade que sobrevive à ruína.
E ali, entre crianças gritando, vendedores de picolé e casais infelizes fingindo plenitude, eu entendi: o velho não tem direito ao amor. O amor exige juventude ou dinheiro. E eu não tenho mais nenhum dos dois.
“Talvez esteja na hora de experimentar um baile da terceira idade na bucólica Tijuca. Lá ninguém fala de chacras, e todo mundo já operou pelo menos uma hérnia.” — pensei.
Voltei para casa com a sensação de que talvez a vida seja isso mesmo: uma sucessão de encontros que revelam, mais do que qualquer outra coisa, o tamanho exato do nosso deslocamento no mundo. E ainda assim, insisto. Porque — e isso aprendi tarde demais — há algo profundamente humano em se permitir o ridículo. Sobretudo quando se está vivo. Ou algo próximo disso.