15 de Julho de 2025 às 17:36
MILLY
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Era um dia qualquer.
mas veio aquela coceirinha.
aquela vontade que não é bem vontade,
é mais um impulso maldito querendo te tirar da rotina
e te jogar de volta pra cama de alguma desconhecida que vai fingir que te entende.
eu tava vindo de uma sequência de aventuras meio tortas.
boates, garotas complicadas, conversas inúteis entre uma chupada e outra.
e aí resolvi voltar pro básico.
pra segurança.
pra zona de conforto com perfume doce e fala treinada.
pedi indicação pro Domenic.
meu guia espiritual nos becos do prazer pago.
ele me manda o nome: Milly.
mando mensagem.
ela responde rápido.
marcamos no mesmo dia.
sem muito papo.
como deve ser.
o prédio?
Travessa dos Poetas.
olha só.
achei simbólico.
afinal, sou o famoso poeta de porra nenhuma.
palavras sujas, ideias torpes, desejo como métrica.
quase me perco tentando achar o local.
até que dou de cara com o próprio Domenic na calçada.
ele me aponta o caminho como um velho xamã do gozo.
subo.
lugar organizado.
cheiro bom, atendimento profissional.
pago.
e chega a dama.
Milly.
sorriso no lugar certo, simpatia no tom certo.
começamos a nos beijar.
de cara, ela pareceu gostar de mim.
mas eu conheço mulher.
sei que esse “gostar” é aquele que dura 59 minutos e 30 segundos.
caímos no colchão no chão.
velho conhecido de tantos carnavais.
e ela manda:
“sabe que gosto de chupar?”
puta que pariu.
isso devia estar escrito em latim em algum vitral de igreja.
“fellatio voluntas est sacra.”
ela se dedica.
com boca, com mão, com olho.
eu ando tendo dificuldade pra gozar.
estresse, insônia, excesso de lucidez.
o mundo acabou e esqueceram de avisar.
talvez sejamos só os fantasmas andando em círculos.
e no sexo, eu busco gozar.
pelo menos isso.
pra não sair de mãos vazias.
e Milly?
ela ajuda.
se entrega.
fala o que precisa ser falado.
faz o que precisa ser feito.
tem corpo bom.
olhar bom.
jeito bom.
faço um oral nela.
a buceta é na medida certa.
textura, gosto, temperatura.
tudo certo.
encapo o garoto.
começo por cima.
ajeito daqui, ajeito dali.
procuro o ângulo onde a alma se rende.
peço pra ela subir.
e peço o que já virou meu mantra nesses encontros:
“me faz gozar.”
ela vai.
e vai bem.
o corpinho em cima de mim.
os cabelos caindo.
a respiração quente.
e eu gozo.
porque às vezes, mesmo com o mundo pegando fogo,
alguém ainda consegue te salvar por uns minutos.
ela não para.
me dá um nuru.
corpo no corpo.
pele na pele.
sussurros, beijos, roçar de esperança.
o garoto até responde.
mas o tempo diz “acabou, campeão.”
não tomei banho.
chuveiro gelado.
dei tchau pra Milly.
voltei pra rua.
com o pau quieto, mas o coração ainda tateando o mundo como se esperasse mais alguma coisa.
e talvez apronte algo na quinta.
porque é isso:
a gente goza pra seguir respirando.