BEIJO
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SIM

Que noite, afeiçoado forista. Que noite memorável... Esta semana, estou completando mais um passo em direção à eternidade, mais um ano de vida, mais um período contemplando este universo material quem vem antes do metafísico. Estaciono o meu fusca na rua coberta por sombras e árvores tristes, uma rua que deságua na Boate Mosaico. Minhas botas firmam meu primeiro passo sobre aqueles paralelepípedos transbordantes de histórias. Em pensar que naquela rua que abriga o meretrício ficava a sede de um jornal que fez parte ativa da biografia do nosso país, a Última Hora. Hoje, o prédio da redação e das rotativas do icônico jornal servem de habitação para alcovas e moquiços destinados ao sexo fugaz.
Quando me aproximo da boate, ouço um som antigo, que me traz memórias, que me faz viajar no tempo por alguns segundos, que se entranha nos meus ouvidos anunciando a minha entrada em mais um posto da velhice. Da pista da boate Mosaico, vazava a melodia do Pink Floyd: “Another brick in the wall”.
PINK FLOYD
O destino me pregando uma peça, o acaso me preparando a melhor recepção. Senti vontade de dançar sobre os paralelepípedos da rua Hilário Ribeiro, dançar abraçado às sombras, flertando com as árvores tristes, dançar como quem zomba do tempo. O tempo, esta parede imaginária e intransponível que nos esmaga contra outra parede inevitável, a morte.
Entro na Mosaico e sou recebido como rei. Um dos donos (Eliseu) já havia passado instruções para que eu recebesse o melhor atendimento. Há tantos anos faz isso por mim e ainda me comovo. Gentilezas me comovem. Encontro alguns amigos que, por estarem presentes, se revelam os melhores amigos. Um ano difícil para mim, um ano árduo para todos nós, mas eu queria fazer como Zorba, queria dançar como um grego e comemorar o momento, não o amanhã. Gostei do que vi na boate, muitas mulheres bonitas, muitas meninas atenciosas. A gerente, os funcionários, todos me oferecendo um carinho que sempre encontrei somente em um lugar, na Mosaico. Em um ano de tristezas, de repente, me vi feliz. Como retribuir? Sendo leal a todos eles, sendo profundamente fiel a essa ternura. Para a mim, a Mosaico não se resume a mais um inferninho, é um lugar que habita as minhas melhores memórias afetivas.
Não esperava muito da noite, queria apenas estar ali, onde a energia libertina me faz contemplar o momento presente, o pulsar da vida e da luta pela sobrevivência. Percebi que a madrugada não quer saber das minhas expectativas quando decide me surpreender, e fui surpreendido. Revi e conversei com a mitológica Lara Serrat, exalando exuberância sob as luzes psicodélicas. Avistei uma morena em um vestido prata colado no corpo, cabelos negros e compridos, pele dourada, pelos aloirados cobrindo as pernas grossas e bem torneadas. Uma índia bonita e sem cacique. Respirei fundo diante da beldade e me aproximei.
— Você é linda. Qual seu nome? — Perguntei usando a introdução mais cretina que eu poderia escolher.
— Índia — ela me responde.
Seu nome não tinha como ser outro, ela escolheu o óbvio. Era uma índia de alguma tribo de beleza rara. Conversamos, ela está há poucos dias na Mosaico, mas pelo que sondei faz muito sucesso. Bebemos uma cerveja, trocamos uns selinhos, uma carícias e convidei à alcova. No andar do amor, sou encaminhado para uma suíte nababesca, uma bela suíte espelhada, com chuveiro e cama grande. Índia vai buscar sua nécessaire e tomo um banho rápido enquanto a espero. Ela retorna, tira o vestido e eu babo como um ancião sem controle sobre o próprio corpo. Que mulher! Totalmente demais! Começamos a nos beijar, beijos longos, beijos reais. Logo me dei conta de que Índia seria um caso de paixão fulminante. Nossos corpos se atracaram, roçaram-se, excitaram-se. Índia gemia em um tom que me deixava insano de tesão. Acredite, forista sem fé, a mulher é maravilhosa. Baco me abençoou com uma bacante na noite do meu aniversário.
A pegação estava tão ardente que nem pedi pelo boquete, coloquei ela de quatro, penetrei em seus domínios mais íntimos e meti forte. Ela gemia alto, pedia por uns tapinhas, empinava a bunda primorosa. A luz do quarto refletia a penugem loira que recobre suas coxas. Não, estimado forista, não consegui segurar. Gozei tudo, gozei a alma, gozei a minha árvore genealógica inteira, gozei meus ancestrais, gozei meus descendentes. Gozei demais. Desabei sem ar, sem fôlego, no colchão. Olhei para o teto e tudo rodava. Índia colou sua pele na minha, acariciou meu tórax e naquele instante, quando cruzei com seus olhos, eu estava apaixonado. Eu a amei.
Trocamos telefones, combinamos um futuro almoço. Que fêmea descomunal é a Índia. Não estará na Mosaico no restante desta semana, mas me prometeu retornar na próxima. Índia não é mulher, é vício. Batidas na porta, o tempo acabou, o sonho terminou. Visto minhas roupas, calço minhas botas e deixo o quarto.
Fecho a conta na Mosaico, recebendo um generoso presente que nunca acho que mereço. Ganho as ruas, a madrugada ia alta, raios de sol ameaçavam romper o horizonte. Entro no fusca, olho em volta, sinto o silêncio. O tempo... O tempo... Quem conhecerá a minha história? Quem se interessará pela minha passagem neste mundo? Talvez você, amigo forista. Talvez, ninguém. Mas saiba que eu vivi, eu vivi. Ave, Mosaico.