BEIJO
SIM - GOSTEI
ORAL
NãO SEI
ORAL COMPLETO
NãO SEI
ANAL
NãO SEI
TAXA ANAL
R$0.00
REPETECO
NãO

DA SÉRIE: ANIVERSÁRIO DO DANTE
A noite de sexta-feira foi longa e só terminou no sábado de manhã. A principal constatação é que não tenho mais o fôlego jovial, praticamente desmaiei agora há pouco. E tudo começou com a visita ao número 210 da rua Uruguaiana.
No Centro, quase todos os bordeis populares se concentram em sobrados com escadarias intermináveis. Para chegar à pista da boate, é quase preciso acampar no meio do caminho para recuperar o fôlego e prosseguir no dia seguinte. Não é diferente com a 210. Como era uma noite em que eu pretendia render sexualmente, cometi a imprudência de tomar um Viagra de 100mg. Não demorou para que eu sentisse o coração mais acelerado e um calor de galinha choca que me fazia suar no frio.
Fiquei imaginando as manchetes do Jornal Extra se eu morresse após um AVC sobre um daqueles colchões de TNT do puteiro. Um fim glorioso para o libertino, mas vergonhoso para o indivíduo. Tive um amigo que morreu dentro do bordel, volta e meia lemos notícias de um ou outro que falece nos braços de uma prostituta. Pode ser poético, mas não é bonito. É deprimente.

.......
A 210 estava intransitável, homens pendurados até no lustre. Poucas mulheres. Cometi o meu primeiro erro, pedi uma Ice, depois outra. Misturei a overdose de Viagra com álcool. Meu calor interno parecia aumentar, estava incômodo. Sentei-me num canto assim que avistei um lugar vago. Que tragédia seria morrer na véspera do aniversário. Arrependi-me do Viagra e fiz promessa de subir a escadaria da Igreja da Penha se eu conseguisse escapar do óbito precoce.
Uma morena magrinha sentou-se ao meu lado. Apresentou-se como Bete e soltou a frase que é quase tema de funk nos trashs...
— E aí? Vamos fazer um amorzinho gostoso?
A pergunta temperada pela voz de taquara rachada aumentou meu estado de náusea.
— Por enquanto estou dando uma olhada. Se eu subir, falo com você.
A garota nem me respondeu. Fiquei tentando controlar a respiração e os batimentos cardíacos. Procurei um guardanapo para escrever o meu obituário, caso a situação se agravasse. Mesmo se eu conseguisse escrever o necrológio antes do último suspiro, em quem naquele ambiente eu confiaria para entregá-lo? Talvez, no vendedor de calcinhas e biquinis que surgiu no mesmo instante em que eu refletia sobre a desencarnação. Ele me pareceu confiável e é possível que se eu comprasse um dos fios dentais que estava vendendo, conquistasse a sua absoluta lealdade.
Comecei a supor que estava febril e delirando. Uma outra morena se acomoda ao meu lado, me estende a mão e se apresenta. As malditas mulheres estavam educadas logo quando eu só queria me concentrar para sobreviver ao meu próprio desatino.
— Olá. Ester. Satisfação.
Estendi as minhas mãos trêmulas e retribuí o cumprimento também me apresentando.
— Dante. Meu nome é Dante.
— E aê? A fim de namorar gostoso?
Definitivamente, queriam me matar. Sobreveio-me uma luz para tentar ficar quieto por alguns minutos e, talvez, conseguir escapar de qualquer fatalidade. Perguntei se a menina fazia massagem.
— Faço tudo, amor.
— Tudo bem, mas massagem você faz?
— Claro.
Alcova.
.......
Acredite, forista sem fé, quando me levantei para ir até ao caixa pagar pelo tempo que contrataria, veio-me uma dor lancinante no braço esquerdo. É o fim — pensei. O lugar, que já era escuro, foi ficando ainda mais escuro para os meus olhos astigmáticos. Paguei o que tinha que pagar e a garota me conduziu ao quarto, despenquei na cama. A menina avisou-me que ia pegar suas coisas e sumiu nas trevas.
Quase rezei uma Ave-Maria e um Pai-Nosso para pedir extrema-unção. Ester retorna ao quarto.
— Você está bem? Está pálido — ela me diz na lata.
Sinceramente, dizer isso para quem não está se sentindo bem é próximo de abrir uma cova e jogar a última pá de cal. Fui sincero na resposta.
— Não estou legal. Estou me sentindo mal. Enjoo, calor e dor no braço.
Percebi os olhos de Ester se arregalando um pouco.
— Quer que eu pegue uma água? — se ofereceu gentilmente.
— Quero sim.
Novamente, Ester desapareceu nas trevas do quarto. Voltou com um copo em que devia caber um litro de água.
— Pode beber. Botei açúcar — ela me avisa.
— Açúcar?! — a menina deve ter pensado que eu era um coroa virgem, nervoso por estar enfrentando a primeira relação carnal.
Engoli aquele litrão de água com açúcar e fiquei deitado, tentando recuperar o controle do corpo. Ester foi carinhosa, afagava os meus cabelos, falava para eu ficar calmo.
— Você é cardíaco? — me pergunta.
— Não. É que cometi a asneira de tomar um Viagra de 100mg.
— Ah! Normal.
Porra. O que seria normal naquela situação? Eu estava ficando apavorado.
Tive a sensação de que adormeci. Quando abri os olhos, havia se passado apenas cinco minutos, não sentia mais nada, estava bem. Ergui o corpo e informei a Ester de que eu estava melhor. A graça foi concedida.
— Viu? Água com açúcar é bom pra isso.
Quem sabe foi Ester quem descobriu a vacina do Covid. Inacreditável. Não transamos, mas ficamos trocando algumas carícias, agradeci a receita milagrosa, vesti a roupa e desaguei novamente nas ruas. Eu me sentia ressuscitado. Joguei fora o guardanapo com o meu obituário, atravessei a Avenida Presidente Vargas e fui comemorar a ressurreição na 502.
A saga continua...