23 de Abril de 2025 às 16:47
BEIJO

NãO SEI

ORAL

SIM - SEM CAMISINHA

ORAL COMPLETO

SIM

ANAL

NãO SEI

TAXA ANAL

R$0.00

REPETECO

NãO




Há muito tempo eu não visitava a Vila Mimosa. E nem tinha vontade. Porém, fazendo a ronda com o Sucatão pela noite temerosa do Rio, decidi estacionar na Rua Ceará e verificar aquele apêndice do mundo.

Dizer que a Vila Mimosa está decadente é um tremendo pleonasmo, mas agora posso afirmar que a zona nunca esteve tão decadente. Atravessei o portal do Inferno e me acomodei em um bar com uma mesa de sinuca.

A cerveja estava morna. O cara do bar parecia ter saído de um filme ruim dos anos 80, com um bigode torto e olhos de quem já esqueceu como era sorrir de verdade. Ele secava copos com uma toalha suja, como se aquilo fosse algum tipo de ritual sagrado. Me serviu como quem empurra um problema pra frente. Tomei um gole e fiz careta. Gosto de metal velho e derrota.

A música vazava de alguma caixa de som miserável escondida atrás das garrafas, algo entre funk barato e um gemido de ressaca. Uma das mulheres se espreguiçou numa cadeira de plástico encardida, pernas cruzadas com mais tédio que sensualidade. Fumava um cigarro mentolado e olhava pro teto como se ele tivesse alguma resposta que ela ainda não conhecia.

Eu acompanhava a sinuca e pensava que talvez tivesse feito escolhas erradas na vida. Mas todo mundo pensa isso em algum momento. O problema é que comigo esse pensamento aparece todo dia, geralmente depois do terceiro copo. Talvez seja o único compromisso verdadeiro que ainda tenho: minha fidelidade ao arrependimento.

O sujeito jogando sinuca parecia um ex-campeão de qualquer coisa que já não importa mais. Barriga de cerveja, cueca aparecendo, cueca vermelha — por que cueca vermelha? Isso devia ser crime. Ele deu uma tacada torta, xingou baixo, e uma das bolas entrou sem querer. Olhou pra mim como se quisesse uma aprovação, mas só levantei a sobrancelha e voltei pra cerveja morna.

Uma outra mulher veio até o balcão, perguntou se eu podia pagar um gim e se apoiou do meu lado. Tinha olheiras de quem já viu coisa demais e uma blusa com um botão a menos. Aproximei o copo do meu nariz, só pra evitar puxar conversa. Às vezes, até o silêncio tem mais a dizer do que as palavras cansadas que a gente escuta nesses lugares.

Ela me olhou de lado e disse:

— Tá esperando alguém?

Ri por dentro. Essa pergunta sempre parece carregada de promessas que nunca se cumprem. Respondi sem virar o rosto:

— Tô esperando o tempo passar. E ele sempre chega atrasado.

Ela soltou uma risada estridente e ficou em silêncio. Boa garota. O tipo de mulher que aprendeu a não desperdiçar frases com quem não vai se lembrar delas no dia seguinte.

A noite se arrastava. Um bêbado vomitou no banheiro. Outro pediu fiado. O dono do bar recusou com um olhar de misericórdia profissional. Ninguém briga mais nesses lugares. Só desiste. A violência foi substituída por uma espécie de cansaço crônico da alma.

Eu me encostei melhor na cadeira, afundei os ombros e pensei em todas as coisas que eu podia estar fazendo. Escrever, por exemplo. Ou dormir. Ou simplesmente caminhar até desaparecer da minha própria vida. Mas não. Eu estava ali, entre o cheiro de álcool velho e perfume barato, observando bolas rolando e mulheres entediadas, com o desejo carnal dormindo numa cama de cimento frio dentro do meu peito.

A verdade é que, em certos momentos, o inferno parece um bar de sinuca vazio numa terça-feira à noite. E a gente ainda paga pra entrar.

Ela voltou. A mulher do gim. Sem que eu perguntasse, disse que seu nome é Laila. Sentou-se do meu lado de novo. Tinha aquela cara de quem já transou por comida e riu de piadas que a machucavam só pra manter o cliente bêbado interessado.

— Tá precisando de companhia? — disse, agora mais direta.

Não respondi. Dei mais um gole, dessa vez nem senti o gosto. Olhei pra ela, bem nos olhos. Não tinha charme. Não tinha beleza. Apenas aquele tipo de dignidade que só se encontra em quem já perdeu quase tudo.

— Não sei se tô precisando de companhia ou de um tiro bem dado. — falei, meio rindo, meio sério.

Ela riu também, um riso rouco, acostumado a piadas tristes.

— Os dois custam quase a mesma coisa.

Ficamos em silêncio. Ela acendeu outro cigarro, me ofereceu. Aceitei. Fumamos como dois fantasmas esperando um trem que nunca vem. Um cachorro magro passou do lado de fora, espiando o bar como se procurasse alguém que nunca vai voltar.

— Sabe o que é pior? — ela disse. — Não é dar o corpo. É quando nem o corpo serve mais. Quando o cara só quer falar. Aí você percebe que tá alugando sua alma também.

Soltei a fumaça devagar.

— Já fiz isso. Paguei pra falar. Paguei pra alguém fingir que ouvia.

— E funcionou?

— Não. Mas naquela noite, me senti menos sozinho. Às vezes, isso já é milagre.


Ela apagou o cigarro com força, como se esmagasse um inseto que já estava morto.

— Vamos subir. É barato. Você não precisa nem tirar a roupa, te faço um boquete gostoso.

Paguei a cerveja e o valor do programa. O barman me olhou como se dissesse "boa sorte", mas não em voz alta — ele já tinha falado demais na vida.

Seguimos por uma tortuosa escada de ferro e entramos em um corredor úmido com cheiro de mofo e desespero. O quarto era pequeno, uma cama com lençol florido e manchado, um ventilador que girava como se tivesse preguiça de viver.

Ela tirou os sapatos, sentou-se na beira da cama e olhou pra mim.

— Vai querer o quê?

— Uma punheta e um cochilo. Só isso. Pode ser?

Ela assentiu. Se deitou de lado, de frente pra mim. Deitei-me por cima da colcha. Ficamos ali, respirando juntos, dois pedaços de carne tentando lembrar como era ser humano.

Não fizemos amor. Não falamos mais. Enquanto ela me masturbava, só deixamos o silêncio nos embrulhar, como um cobertor velho numa noite fria demais pra qualquer palavra.

Gozei, cochilei por uns poucos minutos e despertei agoniado, querendo sair daquela caverna claustrofóbica e insalubre. Ela dormia, ou fingia muito bem. Deixei algumas notas sobre a mesa de cabeceira, como caixinha, pois já havia pagado pelo programa ao balconista. Saí sem olhar pra trás.

Lá fora, o céu ainda era escuro. Um silêncio pesado cobria as ruas. Caminhei devagar.

A vida não era bonita. Mas às vezes, no meio da sujeira, alguém ainda oferecia abrigo. Mesmo que fosse só por uns poucos minutos numa noite. Mesmo que custasse dinheiro.

E isso — isso já era alguma coisa.