BEIJO
SIM - GOSTEI
ORAL
NãO SEI
ORAL COMPLETO
NãO SEI
ANAL
NãO SEI
TAXA ANAL
R$0.00
REPETECO
NãO

**A INTRODUÇÃO NECESSÁRIA
Recebo, e sempre recebi, muitas mensagens de Foristas generosos — viajantes desta grande feira de espelhos que é o Fórum — que, ao se debruçarem sobre meus relatos, deixam palavras de apreço, de incentivo, de reconhecimento.
E cada uma dessas mensagens, ainda que breve ou silenciosa em seu íntimo, é como um sopro no fogo que aquece a escrita. Há, entre essas vozes, aquelas que não apenas leem, mas que se interessam em aprender a contar também suas próprias jornadas, como quem deseja erguer uma câmera diante da vida e registrar o cotidiano. Isso, confesso, me enche de um orgulho — e me impõe, como num imperativo ético, a tarefa da homenagem.
São leitores que não pertencem à confraria das palmas fáceis nem dos apertos de mão virtuais trocados por conveniência. São leitores que, antes de aplaudir, leem. E antes de escrever, sentem. Costumo dizer que escrevo para aquele que lê com a alma, não para aquele que escreve com o ego. O primeiro mergulha; o segundo contabiliza curtidas. O primeiro busca sentido; o segundo busca aprovação.
Alguns sugerem que eu escreva livros — sem saber que já os escrevi. Mas não me incomoda essa desinformação; ela é, de certo modo, um elogio, um alento para este velho escriba.
Obrigado.
*****
Quando saí do prédio da CAMILA — e aqui cabe uma pausa dramática para dizer que, sim, eu estive com Camila e sobrevivi —, decidi, num surto de autoconfiança geográfica absolutamente infundada, que iria até a Rio’s sem precisar de mapa, GPS ou, sei lá, uma bengala com sensor de movimento. Esqueci apenas de um detalhe mínimo: minha memória hoje funciona com a mesma eficiência de um modem discado.
Resolvi confiar na minha intuição, o que é sempre uma má ideia, e acabei me embrenhando pelas ruas de Bonsucesso como um personagem secundário, perdido, suado e com uma crescente paranoia de que tudo aquilo era uma cilada arquitetada por alguma entidade metafísica que adora ver velhos neuróticos desorientados.
Depois de perguntar a um vendedor de balas, uma senhora com um poodle e um homem que, honestamente, parecia conversar com postes, finalmente encontrei a tal Rio’s. Ao lado de um bar que parecia o purgatório em hora feliz: gente saindo pelas janelas, pelos ladrilhos, talvez até pelos ralos.
Entrei na boate com o tipo de constrangimento que só se sente em velórios e salas de espera de proctologistas. E lá estava a cena: uma mesa de sinuca, dois homens silenciosos como monges com tacos nas mãos e uma mulher de biquíni besuntada em óleo — o tipo de imagem que deveria vir com um alerta do Ministério da Saúde: “Ver após o orgasmo pode causar depressão existencial profunda”.
A sensação foi a mesma de encontrar Deus, dar um abraço e descobrir, cinco minutos depois, que tudo não passou de um comercial de desodorante.
Fui até o bar como quem caminha para o cadafalso — tentando ser invisível, quase implorando ao universo que não me notasse. Havia em mim uma timidez tão ancestral, tão metafísica, que parecia herança de Adão após a mordida. Pedi uma Ice com a voz embargada de pecados antigos. E então — Deus me perdoe — surgiu uma criatura. Sim, uma criatura. Serviu-me a bebida sem o menor traço de expressão humana. Nenhum sorriso, nenhum grunhido, nada. Era como ser atendido por um algoritmo.
Minha tentativa de parecer invisível foi, como quase tudo que tento, um fracasso retumbante digno de estudo acadêmico. E o fracasso, naquele instante, tinha forma — uma mulher corpulenta, besuntada em óleo como uma Vênus suburbana, avançou na minha direção com a fúria lasciva de um petroleiro.
Ela não caminhava: deslizava, escorregava, reluzia como uma tentação untada pelo próprio Diabo. Envolveu-me com aquele líquido pegajoso, uma graxa transparente, lúbrica, como se eu fosse uma ave marinha encalhada num desastre ecológico. Foi uma cena tão surreal que, por um instante, considerei seriamente a possibilidade de estar dentro de um documentário sobre a degradação urbana.
Era uma mulher madura. Bonita. Uma dessas cavalonas solenes, feitas para o pecado e para a perdição dos fracos. Aproximou-se com a autoridade lasciva das Messalinas modernas e, sem qualquer cerimônia, pediu que eu lhe pagasse uma bebida. No fim, a conta do bar passou dos cem reais. E eu paguei. Paguei com a dor silenciosa dos que nunca aprenderam a dizer não.
Mas ela não parava. Continuava a se esfregar em mim com um fervor indecente, como se eu não fosse um homem, mas um mata-borrão — uma almofada trágica feita para absorver o óleo, o suor e o perfume doce da danação. E ali, entre goles caros e esfregões untuosos, eu compreendi: estava condenado.
Ela se apresentou com uma naturalidade desconcertante: “Anita”, disse, como quem já nasceu com esse nome programado. Sugeriu, com a frieza administrativa de quem marca uma reunião pelo Zoom, que eu alugasse uma alcova por três horas para que pudéssemos “nos conhecer melhor”.
Fiquei parado, encarando sua expressão impassível, que lembrava a esfinge do Egito depois de uma crise de tédio. Eu não sabia se ela estava me testando, vendendo um plano funerário ou citando uma frase em latim. Mas ela falava sério. Muito sério. Sério como cobrança do imposto de renda.
Intimidado — porque, vamos ser honestos, sou intimidado até por garçons —, negociei humildemente quarenta minutos. Ela respondeu com um “tudo bem” tão decepcionado, mas tão resignado, que tive a estranha impressão de estar diante de alguém que acabou de conferir o bilhete da Mega-Sena e descobriu que não acertou nem o horário do sorteio.
Na alcova, nada aconteceu. Repito: nada. E esse nada tinha a espessura de um drama grego. Eu já havia gozado com Camila e o corpo agora era um túmulo sem profanação. Tentamos uns beijos. Tentamos… não sei. Tentamos alguma coisa.
Ela se esfregava em mim como um daqueles rolos industriais de massagem que você encontra em spas de aeroportos. Eu, por outro lado, parecia mais um sofá velho esperando a coleta seletiva. Nada rolou. E como nada rolou e como absolutamente nada resultou desse nada — acho que você entendeu a dimensão metafísica disso —, encerro por aqui. Fim. Fade out.
Ao sair do quarto, vislumbro uma aparição: o forista Krisium, pré-histórico, monumental, com o olhar febril dos sobreviventes. Convida-me para um forró — sim, um forró! — nas profundezas inconfessáveis de Cordovil. Mas antes, propõe uma parada na boate Black White ali ao lado, como se a noite não tivesse fim, como se o pecado tivesse sequelas e continuações.
Mas essa, ah, essa já é outra história... Talvez mais indecente. Talvez mais absurda. Talvez...