
ADEUS, MV30: O FIM DE UMA ERA (E DE UMA CERTA ELEGÂNCIA DA SACANAGEM)
Por um cronista da velha guarda que ainda paga o estacionamento em dinheiro
Pisei na MV30 pela primeira vez em 1993. Trinta e dois anos atrás. Sim, você leu certo: trinta e dois. O suficiente para que meu RG seja confundido com um papiro egípcio e para que jovens de vinte e poucos anos me chamem de "tio" com aquele ar de quem quer saber se eu conheci o Collor presidente.
A MV30 foi um templo — um templo da luxúria, claro, com mais dignidade do que muito templo evangélico que comprou emissora. Fui levado por dois colegas de uma estatal em que trabalhei (ainda existia estatal com cafezinho e bons salários) e, entre o Beco da Sardinha e a Rua Mayrink Veiga, fui apresentado a uma boate onde circular exigia agilidade, coordenação e ausência de claustrofobia. Era tanta gente, tantos corpos exuberantes, que o simples ato de ir ao banheiro poderia ser interpretado como tentativa de aproximação sexual.
Uma era dourada, em que os bordeis viviam lotados de segunda a sexta — o sábado era reservado à hipocrisia conjugal. O Centro do Rio, naquela faixa entre a Rio Branco e a Praça Mauá, ainda pulsava. Uma vida noturna ativa, os estacionamentos eram abundantes e, principalmente, gratuitos. Sim, crianças, existiu um tempo em que o carioca podia parar seu carro no Centro sem precisar de ser PhD em aplicativos.
A culpa, dizem alguns, é do VLT. Eu digo: é do VLT e da prefeitura. O combo perfeito de trilho sem destino com urbanismo performático. O resultado? Comércio sufocado, boates fechadas, e prostitutas migrando para o WhatsApp com mais eficiência que muito departamento de marketing.
Voltando à MV30, naquela época o dono era o lendário Ribeiro — espécie de Carlos Imperial do entretenimento adulto. Quando Ribeiro saiu, a casa entrou em decadência com a mesma velocidade com que a gente perde a paciência no DETRAN. A MV30 virou uma metáfora do Brasil: mal administrada, saudosista e eternamente gerida pelos mesmos nomes grisalhos com mentalidade de anos 90 e tabelas de preço em cruzeiros novos.
E agora, o inevitável aconteceu: a MV30 fechou as portas. Sem pompa, sem cerimônia, sem nem mesmo um último desconto para clientes fiéis. Um pedaço do Centro morreu, e junto com ele, um fragmento das nossas más intenções mais bem organizadas. Para os que viveram a fase de ouro, resta a memória. Para os que chegaram tarde, resta o Instagram de acompanhantes com filtros e preços que fariam corar um Sheik árabe.
É curioso notar como os grandes bordeis afundaram exatamente como os antigos fóruns da internet: mesmos nomes, mesmas cabeças, nenhuma atualização. Quando não se renova o elenco, nem muda o roteiro, o público vai embora — ou morre. O que sobra é um punhado de fantasmas gerenciando casas vazias com cara de casa de penhores.
No final, a MV30 não morreu só por falta de clientes, mas por excesso de apego a um tempo que não existe mais. Hoje, até a prostituição é digital. Belas garotas preferem os trashes: menos cobrança, mais rotação, mais dinheiro. As termas de luxo viraram relíquias para historiadores da luxúria.
O caixão está lacrado. Não teremos retorno triunfal, nem reforma vintage. Fechou. Acabou. É memória engavetada. Sorte de quem viveu os dias de glória. E paciência para os que chegaram só para assistir ao enterro.
A vida continua. Não sabemos bem para onde — mas, com certeza, não tem mais vaga no estacionamento.

