“O amor é uma tentativa de penetrar no íntimo de outro ser humano, mas só pode ter sucesso se a rendição for mútua.”
—Octavio Paz
*Não, não sinto vergonha, o fórum para mim é também um tipo de diário e neste tópico irei narrar as reflexões que me surgem nesta história que dividirei com você, afeiçoado forista e que quero que fique registrada para que eu lembre do que vivi daqui a alguns anos. Como o que irei compor não será um relato, escrevo como crônica e asseguro que foram raríssimas as mulheres que mereceram que eu dedicasse a elas uma crônica. Sei que receberei muitos olhares debochados, maldosos e algum ressentimento, mas não posso impedi-los de acontecerem. Acredito que é a nossa capacidade intelectual é o que nos orienta a perceber o valor de quem cruza com o nosso destino. As melhores escolhas são feitas pela inteligência, não pelas paixões ocasionais.
Um legítimo libertino é como Ulisses em a Odisseia, ele navega por mares misteriosos e turbulentos, deseja encontrar um porto mesmo sem saber o que haverá no porto desconhecido. Neste périplo interminável, que se estreita com o avançar da idade, o libertino enfrenta os seus maiores inimigos: o tempo e a inveja pelo seu estilo de vida.
Sobre o libertino, existem duas profecias, o amor é o Santo Graal que carrega o poder de curar o seu coração nômade, mas o coração libertino questiona o amor, pois o considera somente uma ilusão, um cativeiro. Navegando à deriva pelos sete mares, o libertino tenta evitar a única mulher capaz de seduzi-lo, capaz de causar a chama que ele anseia. Habita nessa mulher temida pelo libertino uma ambiguidade, ela não consegue amar sem afogar os seus amantes. Na mitologia, as mulheres que mais alvejaram a fraqueza de Ulisses foram as sereias.
Ulisses pediu que o amarrassem ao mastro do navio e ordenou aos seus marujos que tapassem os próprios ouvidos com cera. Ulisses sabia que era fraco diante do poder de sedução daquelas míticas mulheres do mar, mesmo assim queria ouvir o canto. Sabendo que os marujos poderiam sucumbir, usou o estratagema que os manteria surdos durante a travessia. Ao escutar as vozes que vinham das ondas, Ulisses gritou, se debateu, implorou para que os seus comandados o soltassem, ele queria se entregar, mergulhar nos braços da voz feminina que o chamava, mas os marujos estavam surdos às suas súplicas. Ulisses sobreviveu, mas pagou o preço de não conhecer a força da paixão que afoga os homens.
Foi assim que enxerguei Isadora quando a conheci, uma sereia capaz de enfeitiçar e afogar os homens comuns que mergulham em seus braços, embalados pelo canto da sua voz. Todas as sereias são belas, são suaves, são eróticas, conhecem a glória e desconhecem as consequências do poder que sustentam. Sereias não são feitas para homens comuns, só Ulisses foi capaz de ouvir o canto de uma delas e resistir ao ímpeto de se lançar em seus seios. A paixão desmedida é doença, a paixão controlada é sobrevivência.
Confesso, encantei-me com a mulher após as muitas visitas àquele mar de prazeres que é a sala de Isadora na Álvaro Alvim. Num oceano de tantas sereias, Isadora é uma das mais poderosas. Fico imaginando quantos se afogaram em sua presença, sem forças para resistir, sem a racionalidade de Ulisses para evitar o naufrágio. Sereias podem ser anjos ou tormenta, tudo depende da inteligência daqueles que atravessam as águas por onde elas cantam. Diante de uma sereia, Ulisses amarrou-se ao mastro do navio para não ceder à loucura, eu me amarro à minha memória, às experiências vividas para poder distinguir o que é verdade, o que é ilusão e o que é risco.
Isadora é uma dessas potências míticas da natureza, dotadas do poder de enfeitiçar, qualidade que admiro em uma mulher. Quando um libertino busca uma acompanhante, não almeja apenas o sexo, quer a ilusão. Isadora é a grã-mestra do universo das fantasias mais envolventes que podemos conceber. Seu quarto é uma teia em que ficamos presos voluntariamente, sua boca é um redemoinho que nos leva e pelo qual nos deixamos levar, a voz magnética é como o canto da sereia de Ulisses, nos faz pensar que canta só para os nossos ouvidos, nos faz crer naquilo que não acreditamos mais. Isadora tem a beleza de um pôr do sol que nos faz esquecer de que o céu anoitece em algum momento.
Nunca havia lido todos os TDs sobre ela, decidi lê-los do início ao fim. A sensação foi a de estar lendo um livro de magia, sobre feitiços de sedução. Ao lado dela, somos inevitáveis coadjuvantes, Isadora protagoniza a nossa submissão quando se submete à nossa ânsia de orgasmo, mas ela também nos acompanha no gozo. Os seus reatos mostram clientes cujas reações de fascínio se repetem. Os gestos, os toques, os beijos, o sexo, tudo se reproduz com muita semelhança a cada página virada da biografia dessa mulher profundamente libidinosa que conhecemos como Isadora. Todos são iguais, mas todos se sentem únicos quando se despedem. É a mágica de Isadora, o plural se torna singular. Supomos que a possuímos, mas é ela que nos possui.
Sou um homem com muitas regras, com muitos filtros que me protegem das paixões que circulam pelo terreno das garotas de programa. As que se entregam são as mais cobiçadas, as que transmitem verdade, detesto simulações, desatenção comigo, tenho aversão pela mentira, desprezo pelas que se mostram mercenárias e não levo a sério encontros em que um dos pares continua se sentindo sozinho. Certa vez, Isadora proferiu uma palavra que atingiu como um míssil os muros da fortaleza que me preservam: lealdade. Nunca, em toda a minha jornada, ouvi uma acompanhante falar sobre lealdade, ser leal é um dos valores que mais exijo de quem se relaciona comigo. Talvez, por essa razão, o meu círculo de amigos e amigas seja tão restrito. Lealdade e gratidão são palavras da moda, mas que soam vazias para a maioria dos ouvidos.
Foi através dessa única palavra – lealdade - que Isadora conseguiu fazer o seu canto de sereia me alcançar. Escutá-la falar em lealdade me fez baixar a guarda. Foi uma boa surpresa saber que um dos meus mais fortes princípios também tinha valor para a mulher com quem eu quis conviver nas últimas semanas, mas a lealdade é algo que só se exibe durante as provações, durante as escolhas, durante a caminhada.
Não acredito em relacionamentos amorosos com garotas de programa que não ultrapassem o seu local de trabalho, o seu horário de expediente. Gosto muitíssimo da Isadora e me pergunto se ela irá romper algumas fronteiras para que eu não me sinta apenas alguém que está de passagem, como outro qualquer. Considero que a grande prova de inteligência ocorre quando um homem e uma mulher são capazes de perceber o valor de terem cruzado o mesmo caminho


