CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Crônicas, histórias e contos dos membros e garotas que participam no GPARENA! Fiquem à vontade para participar!
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por membro »

Fui um andarilho noturno e no verão de uma década distante, quando a Lapa respirava entre as sombras de travestis e rufiões decadentes, longe da festa das luzes de neon que imperam atualmente, eu caminhava pelos burburinhos clandestinos da rua do Riachuelo. Não tinha um rumo, mas buscava um objetivo, parei em um boteco numa esquina arborizada da av. Nossa Senhora de Fátima e pedi uma Salinas.

Um boêmio fala, mas prefere ouvir. Escutar os papos sorrateiros ou gritantes de um botequim é colher histórias ou perceber convites para aventuras. Dois homens que aparentavam estar na faixa dos quarenta anos de idade comentavam sobre um amigo desgarrado.

— Cadê o Rufino, cara? O bicho sumiu, estava comigo agorinha mesmo.

— O Ladeira passou aqui e disse que ele foi para os lados da Caverna do Dragão.

— É ali no início da André Cavalcanti.

— É puteiro?

— Inferninho.

Atento ao diálogo entre os dois personagens notívagos, gravei as coordenadas e me decidi a explorar a tal Caverna do Dragão. Tomei três doses da minha cachaça favorita e parti deslizando com as minhas botas em direção ao lugar. Meu estado etílico dava aos meus passos um ritmo de levitação, as pupilas dilatadas pelo álcool me faziam ver estrelas cadentes no asfalto. A felicidade é um copo de caninha.

Comprei um maço desses cigarros de menta, na época eu gostava de ter algo entre os dedos exalando fumaça como um defumador. Alcancei a rua André Cavalcanti e avistei um toldo roxo piscando com luzes que me lembravam decoração de Natal. A placa na entrada mostrava-me que acertei o caminho. O nome Caverna do Dragão piscava em vermelho, ao lado das letras o dragão estilizado simulava soltar chamas pela boca. Entrei...

Sempre gostei de sair sozinho à noite, isso me dava liberdade, me permitia a mobilidade que eu quisesse exercer, não me fazia depender das preferências de uma companhia para entrar onde eu quisesse. A Caverna do Dragão não cobrava ingresso, pagava-se pelo consumo. A entrada desaguava em uma rampa que se aprofundava pelo subsolo de um prédio que aparentava ser residencial, segui por uma angustiante descida em caracol que não prometia fim, caí em uma sequência de corredores iluminados por pequenas luzes vermelhas e finalmente desemboquei em um salão amplo, decorado com candelabros e lustres antigos, como se fosse a sala de uma casa da nobreza imperial. O som altíssimo me anunciava uma região exótica, penetrei na pista ao som de A-Há com Take On Me...

A-HA

Debaixo de um dos lustres exuberantes, uma mesa de sinuca e no entorno algumas mesas pequenas rodeadas por duas cadeiras. Pelos cantos, vi pinballs e máquinas de fliperama; no centro de tudo uma pista de dança cercada por cordas, como se fosse um ringue para luta de boxe. A-Ha deve ter sido a introdução, pois logo o DJ emendou com Dreams...

DREAMS

De cara cheia, arrisquei minha veia dançante e soltei a franga enquanto observava o entorno. A boate era habitada por uma galera moderninha para aqueles anos remotos, meninas com maquiagem pesada, homens com cabelos estranhos, um clima gótico. Eu atraía a atenção por ser um elemento destoante naquele aquário de peixes ornamentais, estava vestido com um blazer, blusa social e as botas gaúchas inseparáveis nas minhas incursões pela noite. Uma loira com roupa semelhante a de uma colegial perdida no bordel me acompanhava de rabo de olho e um sorriso que poderia ser deboche ou curiosidade, eu queria abordá-la, mas precisava me fortalecer com mais uma dose e fui buscar o bar atrás de um uísque.

Assim que desci do ringue, a melodia de Simple Minds ecoou nos meus ouvidos que ainda ouviam, nesse momento fui possuído, esqueci o uísque, retornei ao ringue musical e encarnei um Baryshnikov insano.

SIMPLE MINDS

Não me lembro de ter dançado tanto na vida, talvez por isso me recorde das músicas, das sensações, do gosto de tudo, do sabor do batom da loira que consegui beijar quase no alvorecer da madrugada. Acendi um cigarro, lancei as mãos para o alto, rebolei como um hetero liberado de todos os preconceitos plantados na alma e conheci o Nirvana.


Continua... :dancinha:
Avatar do usuário
Saulo Top
Verified
/\
/\
Mensagens: 1871
Registrado em: 26 Abr 2020, 16:05
Localização: Londres, Reino Unido

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por Saulo Top »

Dante escreveu: 02 Set 2022, 11:50 Fui um andarilho noturno e no verão de uma década distante, quando a Lapa respirava entre as sombras de travestis e rufiões decadentes, longe da festa das luzes de neon que imperam atualmente, eu caminhava pelos burburinhos clandestinos da rua do Riachuelo. Não tinha um rumo, mas buscava um objetivo, parei em um boteco numa esquina arborizada da av. Nossa Senhora de Fátima e pedi uma Salinas.

Um boêmio fala, mas prefere ouvir. Escutar os papos sorrateiros ou gritantes de um botequim é colher histórias ou perceber convites para aventuras. Dois homens que aparentavam estar na faixa dos quarenta anos de idade comentavam sobre um amigo desgarrado.

— Cadê o Rufino, cara? O bicho sumiu, estava comigo agorinha mesmo.

— O Ladeira passou aqui e disse que ele foi para os lados da Caverna do Dragão.

— É ali no início da André Cavalcanti.

— É puteiro?

— Inferninho.

Atento ao diálogo entre os dois personagens notívagos, gravei as coordenadas e me decidi a explorar a tal Caverna do Dragão. Tomei três doses da minha cachaça favorita e parti deslizando com as minhas botas em direção ao lugar. Meu estado etílico dava aos meus passos um ritmo de levitação, as pupilas dilatadas pelo álcool me faziam ver estrelas cadentes no asfalto. A felicidade é um copo de caninha.

Comprei um maço desses cigarros de menta, na época eu gostava de ter algo entre os dedos exalando fumaça como um defumador. Alcancei a rua André Cavalcanti e avistei um toldo roxo piscando com luzes que me lembravam decoração de Natal. A placa na entrada mostrava-me que acertei o caminho. O nome Caverna do Dragão piscava em vermelho, ao lado das letras o dragão estilizado simulava soltar chamas pela boca. Entrei...

Sempre gostei de sair sozinho à noite, isso me dava liberdade, me permitia a mobilidade que eu quisesse exercer, não me fazia depender das preferências de uma companhia para entrar onde eu quisesse. A Caverna do Dragão não cobrava ingresso, pagava-se pelo consumo. A entrada desaguava em uma rampa que se aprofundava pelo subsolo de um prédio que aparentava ser residencial, segui por uma angustiante descida em caracol que não prometia fim, caí em uma sequência de corredores iluminados por pequenas luzes vermelhas e finalmente desemboquei em um salão amplo, decorado com candelabros e lustres antigos, como se fosse a sala de uma casa da nobreza imperial. O som altíssimo me anunciava uma região exótica, penetrei na pista ao som de A-Há com Take On Me...

A-HA

Debaixo de um dos lustres exuberantes, uma mesa de sinuca e no entorno algumas mesas pequenas rodeadas por duas cadeiras. Pelos cantos, vi pinballs e máquinas de fliperama; no centro de tudo uma pista de dança cercada por cordas, como se fosse um ringue para luta de boxe. A-Ha deve ter sido a introdução, pois logo o DJ emendou com Dreams...

DREAMS

De cara cheia, arrisquei minha veia dançante e soltei a franga enquanto observava o entorno. A boate era habitada por uma galera moderninha para aqueles anos remotos, meninas com maquiagem pesada, homens com cabelos estranhos, um clima gótico. Eu atraía a atenção por ser um elemento destoante naquele aquário de peixes ornamentais, estava vestido com um blazer, blusa social e as botas gaúchas inseparáveis nas minhas incursões pela noite. Uma loira com roupa semelhante a de uma colegial perdida no bordel me acompanhava de rabo de olho e um sorriso que poderia ser deboche ou curiosidade, eu queria abordá-la, mas precisava me fortalecer com mais uma dose e fui buscar o bar atrás de um uísque.

Assim que desci do ringue, a melodia de Simple Minds ecoou nos meus ouvidos que ainda ouviam, nesse momento fui possuído, esqueci o uísque, retornei ao ringue musical e encarnei um Baryshnikov insano.

SIMPLE MINDS

Não me lembro de ter dançado tanto na vida, talvez por isso me recorde das músicas, das sensações, do gosto de tudo, do sabor do batom da loira que consegui beijar quase no alvorecer da madrugada. Acendi um cigarro, lancei as mãos para o alto, rebolei como um hetero liberado de todos os preconceitos plantados na alma e conheci o Nirvana.


Continua... :dancinha:
Caraca, muito bom ! Ansioso pelo que vem depois. :piscada:
" O que fizeram comigo me criou, é um princípio básico do universo, que toda ação cria uma reação igual e oposta! "

V de Vingança
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por membro »

Saulo Top escreveu: 02 Set 2022, 18:57
Caraca, muito bom ! Ansioso pelo que vem depois. :piscada:

Só você para me ler, afeiçoado Saulo... Obrigado. O velho escriba agradece a leitura dessas modestas memórias.
Avatar do usuário
Lex Luthor
/\
/\
Mensagens: 25
Registrado em: 23 Ago 2022, 16:11

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por Lex Luthor »

Consegui imaginar tudinho ao ler o texto.

Aguardando a continuação :cool:
Avatar do usuário
delgran
/\
/\
Mensagens: 35
Registrado em: 09 Abr 2019, 16:58

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por delgran »

Muito obrigado nobre Dante.

É sempre enorme prazer viajar nas suas histórias.
Avatar do usuário
Tenista
Verified
/\
/\
Mensagens: 236
Registrado em: 04 Mar 2021, 17:03

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por Tenista »

Embarcamos juntos nas histórias do confrade. Sempre uma melhor que a outra.
" AD ASTRA PER ASPERA "
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por membro »

Lex, Delgran e Tenista, fica o meu obrigado pela generosa leitura desse episódio resgatado da minha memória. Acreditem que cada leitura é valiosíssima neste país com 30% de analfabetos funcionais. O complemento virá.
Avatar do usuário
Toronto
Verified
/\
/\
Mensagens: 48
Registrado em: 05 Jun 2020, 18:56

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por Toronto »

Dante eu fico eufórico pra saber o fim das suas histórias, meu caro forista deveria escrever um livro sobre as crônicas de um libertino, não perderia a noite de autógrafos.
Avatar do usuário
Saulo Top
Verified
/\
/\
Mensagens: 1871
Registrado em: 26 Abr 2020, 16:05
Localização: Londres, Reino Unido

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por Saulo Top »

Dante escreveu: 02 Set 2022, 19:04
Saulo Top escreveu: 02 Set 2022, 18:57
Caraca, muito bom ! Ansioso pelo que vem depois. :piscada:

Só você para me ler, afeiçoado Saulo... Obrigado. O velho escriba agradece a leitura dessas modestas memórias.

É um prazer ler suas escritas, mestre Dante.
" O que fizeram comigo me criou, é um princípio básico do universo, que toda ação cria uma reação igual e oposta! "

V de Vingança
Avatar do usuário
Dionizio_RJ
Verified
/\
/\
Mensagens: 456
Registrado em: 16 Mar 2021, 08:57

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por Dionizio_RJ »

Dante escreveu: 02 Set 2022, 11:50 Fui um andarilho noturno e no verão de uma década distante, quando a Lapa respirava entre as sombras de travestis e rufiões decadentes, longe da festa das luzes de neon que imperam atualmente, eu caminhava pelos burburinhos clandestinos da rua do Riachuelo. Não tinha um rumo, mas buscava um objetivo, parei em um boteco numa esquina arborizada da av. Nossa Senhora de Fátima e pedi uma Salinas.

Um boêmio fala, mas prefere ouvir. Escutar os papos sorrateiros ou gritantes de um botequim é colher histórias ou perceber convites para aventuras. Dois homens que aparentavam estar na faixa dos quarenta anos de idade comentavam sobre um amigo desgarrado.

— Cadê o Rufino, cara? O bicho sumiu, estava comigo agorinha mesmo.

— O Ladeira passou aqui e disse que ele foi para os lados da Caverna do Dragão.

— É ali no início da André Cavalcanti.

— É puteiro?

— Inferninho.

Atento ao diálogo entre os dois personagens notívagos, gravei as coordenadas e me decidi a explorar a tal Caverna do Dragão. Tomei três doses da minha cachaça favorita e parti deslizando com as minhas botas em direção ao lugar. Meu estado etílico dava aos meus passos um ritmo de levitação, as pupilas dilatadas pelo álcool me faziam ver estrelas cadentes no asfalto. A felicidade é um copo de caninha.

Comprei um maço desses cigarros de menta, na época eu gostava de ter algo entre os dedos exalando fumaça como um defumador. Alcancei a rua André Cavalcanti e avistei um toldo roxo piscando com luzes que me lembravam decoração de Natal. A placa na entrada mostrava-me que acertei o caminho. O nome Caverna do Dragão piscava em vermelho, ao lado das letras o dragão estilizado simulava soltar chamas pela boca. Entrei...

Sempre gostei de sair sozinho à noite, isso me dava liberdade, me permitia a mobilidade que eu quisesse exercer, não me fazia depender das preferências de uma companhia para entrar onde eu quisesse. A Caverna do Dragão não cobrava ingresso, pagava-se pelo consumo. A entrada desaguava em uma rampa que se aprofundava pelo subsolo de um prédio que aparentava ser residencial, segui por uma angustiante descida em caracol que não prometia fim, caí em uma sequência de corredores iluminados por pequenas luzes vermelhas e finalmente desemboquei em um salão amplo, decorado com candelabros e lustres antigos, como se fosse a sala de uma casa da nobreza imperial. O som altíssimo me anunciava uma região exótica, penetrei na pista ao som de A-Há com Take On Me...

A-HA

Debaixo de um dos lustres exuberantes, uma mesa de sinuca e no entorno algumas mesas pequenas rodeadas por duas cadeiras. Pelos cantos, vi pinballs e máquinas de fliperama; no centro de tudo uma pista de dança cercada por cordas, como se fosse um ringue para luta de boxe. A-Ha deve ter sido a introdução, pois logo o DJ emendou com Dreams...

DREAMS

De cara cheia, arrisquei minha veia dançante e soltei a franga enquanto observava o entorno. A boate era habitada por uma galera moderninha para aqueles anos remotos, meninas com maquiagem pesada, homens com cabelos estranhos, um clima gótico. Eu atraía a atenção por ser um elemento destoante naquele aquário de peixes ornamentais, estava vestido com um blazer, blusa social e as botas gaúchas inseparáveis nas minhas incursões pela noite. Uma loira com roupa semelhante a de uma colegial perdida no bordel me acompanhava de rabo de olho e um sorriso que poderia ser deboche ou curiosidade, eu queria abordá-la, mas precisava me fortalecer com mais uma dose e fui buscar o bar atrás de um uísque.

Assim que desci do ringue, a melodia de Simple Minds ecoou nos meus ouvidos que ainda ouviam, nesse momento fui possuído, esqueci o uísque, retornei ao ringue musical e encarnei um Baryshnikov insano.

SIMPLE MINDS

Não me lembro de ter dançado tanto na vida, talvez por isso me recorde das músicas, das sensações, do gosto de tudo, do sabor do batom da loira que consegui beijar quase no alvorecer da madrugada. Acendi um cigarro, lancei as mãos para o alto, rebolei como um hetero liberado de todos os preconceitos plantados na alma e conheci o Nirvana.


Continua... :dancinha:
Show de crônica, trilha sonora sensacional.
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por membro »

Dionizio_RJ escreveu: 03 Set 2022, 17:13
Show de crônica, trilha sonora sensacional.
Valeu, Dio. :positivo:
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por membro »

Toronto escreveu: 03 Set 2022, 14:24 Dante eu fico eufórico pra saber o fim das suas histórias, meu caro forista deveria escrever um livro sobre as crônicas de um libertino, não perderia a noite de autógrafos.
Toronto, é bom saber que você é um leitor. Valeu :positivo:
Avatar do usuário
Barbosa82
Verified
/\
/\
Mensagens: 997
Registrado em: 10 Mai 2022, 00:53

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por Barbosa82 »

Dante escreveu: 02 Set 2022, 11:50 Fui um andarilho noturno e no verão de uma década distante, quando a Lapa respirava entre as sombras de travestis e rufiões decadentes, longe da festa das luzes de neon que imperam atualmente, eu caminhava pelos burburinhos clandestinos da rua do Riachuelo. Não tinha um rumo, mas buscava um objetivo, parei em um boteco numa esquina arborizada da av. Nossa Senhora de Fátima e pedi uma Salinas.

Um boêmio fala, mas prefere ouvir. Escutar os papos sorrateiros ou gritantes de um botequim é colher histórias ou perceber convites para aventuras. Dois homens que aparentavam estar na faixa dos quarenta anos de idade comentavam sobre um amigo desgarrado.

— Cadê o Rufino, cara? O bicho sumiu, estava comigo agorinha mesmo.

— O Ladeira passou aqui e disse que ele foi para os lados da Caverna do Dragão.

— É ali no início da André Cavalcanti.

— É puteiro?

— Inferninho.

Atento ao diálogo entre os dois personagens notívagos, gravei as coordenadas e me decidi a explorar a tal Caverna do Dragão. Tomei três doses da minha cachaça favorita e parti deslizando com as minhas botas em direção ao lugar. Meu estado etílico dava aos meus passos um ritmo de levitação, as pupilas dilatadas pelo álcool me faziam ver estrelas cadentes no asfalto. A felicidade é um copo de caninha.

Comprei um maço desses cigarros de menta, na época eu gostava de ter algo entre os dedos exalando fumaça como um defumador. Alcancei a rua André Cavalcanti e avistei um toldo roxo piscando com luzes que me lembravam decoração de Natal. A placa na entrada mostrava-me que acertei o caminho. O nome Caverna do Dragão piscava em vermelho, ao lado das letras o dragão estilizado simulava soltar chamas pela boca. Entrei...

Sempre gostei de sair sozinho à noite, isso me dava liberdade, me permitia a mobilidade que eu quisesse exercer, não me fazia depender das preferências de uma companhia para entrar onde eu quisesse. A Caverna do Dragão não cobrava ingresso, pagava-se pelo consumo. A entrada desaguava em uma rampa que se aprofundava pelo subsolo de um prédio que aparentava ser residencial, segui por uma angustiante descida em caracol que não prometia fim, caí em uma sequência de corredores iluminados por pequenas luzes vermelhas e finalmente desemboquei em um salão amplo, decorado com candelabros e lustres antigos, como se fosse a sala de uma casa da nobreza imperial. O som altíssimo me anunciava uma região exótica, penetrei na pista ao som de A-Há com Take On Me...

A-HA

Debaixo de um dos lustres exuberantes, uma mesa de sinuca e no entorno algumas mesas pequenas rodeadas por duas cadeiras. Pelos cantos, vi pinballs e máquinas de fliperama; no centro de tudo uma pista de dança cercada por cordas, como se fosse um ringue para luta de boxe. A-Ha deve ter sido a introdução, pois logo o DJ emendou com Dreams...

DREAMS

De cara cheia, arrisquei minha veia dançante e soltei a franga enquanto observava o entorno. A boate era habitada por uma galera moderninha para aqueles anos remotos, meninas com maquiagem pesada, homens com cabelos estranhos, um clima gótico. Eu atraía a atenção por ser um elemento destoante naquele aquário de peixes ornamentais, estava vestido com um blazer, blusa social e as botas gaúchas inseparáveis nas minhas incursões pela noite. Uma loira com roupa semelhante a de uma colegial perdida no bordel me acompanhava de rabo de olho e um sorriso que poderia ser deboche ou curiosidade, eu queria abordá-la, mas precisava me fortalecer com mais uma dose e fui buscar o bar atrás de um uísque.

Assim que desci do ringue, a melodia de Simple Minds ecoou nos meus ouvidos que ainda ouviam, nesse momento fui possuído, esqueci o uísque, retornei ao ringue musical e encarnei um Baryshnikov insano.

SIMPLE MINDS

Não me lembro de ter dançado tanto na vida, talvez por isso me recorde das músicas, das sensações, do gosto de tudo, do sabor do batom da loira que consegui beijar quase no alvorecer da madrugada. Acendi um cigarro, lancei as mãos para o alto, rebolei como um hetero liberado de todos os preconceitos plantados na alma e conheci o Nirvana.


Continua... :dancinha:
Ótima história! Confesso q mesmo morando na Lapa desde criança,eu não sabia o q era essa Caverna do Dragão. Quem já andou por aqui nos anos 80 e até no início dos anos 90 viu uma Lapa bem diferente do q é nos dias de hj. Parabéns!
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: CAVERNA DO DRAGÃO (BY DANTE)

Mensagem por membro »

Barbosa82 escreveu: 03 Set 2022, 19:44
Ótima história! Confesso q mesmo morando na Lapa desde criança,eu não sabia o q era essa Caverna do Dragão. Quem já andou por aqui nos anos 80 e até no início dos anos 90 viu uma Lapa bem diferente do q é nos dias de hj. Parabéns!
Pois é, Babosa. Ficava na mesma rua onde está o Buraco da Lacraia. A Lapa e seus nomes sugestivos :sacarstico:
Responder