26 de Abril de 2025 às 12:05
BEIJO

SIM - GOSTEI

ORAL

SIM - SEM CAMISINHA

ORAL COMPLETO

NãO SEI

ANAL

NãO SEI

TAXA ANAL

R$0.00

REPETECO

TALVEZ




Noite de céu cinza. Um céu esfarrapado como a alma da cidade. Voltei à boate Up House, aquele inferninho disfarçado de balada na Lapa, com luz de neon e cheiro de desinfetante misturado com perfume paraguaio. Um templo para os devotos do pecado e os cínicos da virtude.

Sei que sempre haverá um sacristão para me condenar — tem sempre um hipócrita com bíblia na mão. Mas o que eu posso fazer se não descubro outros prazeres mais duradouros do que morder a maçã que uma Eva qualquer me oferece?

Talvez seja isso: a maçã. O gosto do proibido, mesmo quando você já sabe que não tem nada demais. Que é só fruta colorida com batom de camelô. Mas, caramba, às vezes ainda é doce. Isso basta.

Quando a vi, ela estava sentada perto do bar como se não tivesse um minuto a perder. Pernas cruzadas e olhos que não pediam desculpa por estarem ali. Não era jovem demais. Não era velha. Era o tipo de mulher que já apanhou por estar viva e agora revida. Sorriu para mim como quem reconhece um velho cliente, ou talvez só mais um idiota com a carteira cheia e o coração vazio.

— Posso te fazer companhia? Me paga uma cerveja? — ela perguntou num tom de voz de quem já gritou muito e agora sussurra.

— Duas. — Respondi, e me sentei ao lado dela como quem volta para casa depois de muito tempo.

Não perguntei o nome. Nomes só servem para a gente se iludir. Ela também não perguntou o meu. Melhor assim. Ficamos ali, bebendo em silêncio por uns bons minutos. O barulho do lugar emanava uma mistura de risada forçada e funk de quinta. Mas com a cerveja gelada e o calor dela ao lado, parecia quase poesia.

— Tá procurando o quê hoje, bebê? — ela perguntou, encostando a perna na minha.

— Um pouco de esquecimento e salvação. E, se for possível, uma mulher para me enganar.

— Salvação para quem, bebê? — ela quis saber rindo.

— Para os fodidos. Os cansados. Os que se afogam em sexo pago e vinho ruim.

— A gente não quer salvação. A gente quer alívio. E às vezes, alívio é só uma boa transa e um cigarro depois.

Preferi encerrar a sessão de análise. Aquela mulher conhecia a vida. Sugeriu que eu fosse ao caixa, pois me mostraria o caminho para o esquecimento. Paguei pelo ingresso e ela me conduziu pela escada até um quarto nos fundos sem fazer cena, como se fôssemos só mais dois fantasmas se esbarrando no escuro.

O aposento era pequeno, sem espelho no teto ou lençóis vermelhos demais. A mulher carregava um crucifixo torto preso ao pescoço, era alguém que definitivamente não entendeu nada sobre salvação.

Tiramos a roupa devagar, sem romance, mas com uma estranha ternura. Era um ritual triste, mas necessário, como lacrimejar no meio do velório. E ali, com ela por cima de mim, olhos nos olhos, senti uma coisa que não tinha nome. Não era amor. Deus me livre. Mas também não era só sexo.

Era como se, por alguns minutos, dois fracassos se encontrassem e dissessem: “tudo bem, pelo menos a gente tentou.

Para ser sincero, na minha idade já descobri que todos os prazeres são breves — talvez por isso sejam prazeres. Porém, alguns são mais intensos. E ela era isso: intensidade embalada em dor e batom.

A mulher me fez gozar. Depois, deitados, ela fumou olhando para o nada como se quisesse sair do próprio corpo. Eu também. O silêncio entre nós era quase confortável. Olhei para o relógio: 2h15. O universo lá fora seguia girando, enquanto ali dentro tudo parecia suspenso. Como se o tempo tivesse dado uma trégua só para nos deixar morrer em paz por alguns minutos.

— Cê vem sempre aqui? — ela me perguntou, com ironia.

— Quando a vida começa a me sufocar — respondi sangrando verdade.

— Então deve vir sempre.

Assenti. Ela não estava errada. O mundo é cheio de regras, planilhas, relógios, reuniões, boletos e gente vazia com roupa cara. Ali dentro, pelo menos, as mentiras são honestas.

— Meu nome é Mila — finalmente se apresentou, antes de dar o bote.

Então, Mila me pediu uma gorjeta, eu entreguei o dinheiro e ela nem agradeceu. Não precisava. Era só um acordo entre dois perdidos tentando sobreviver à própria existência. A relação era clara, limpa na sua sujeira.

Na saída, a chuva tinha começado. Claro. Céu cinza não promete nada que preste. Fiquei ali na calçada, vendo a Lapa tremer sob o peso da noite. A luz de neon da Up House falhava como um coração com arritmia.

Pensei em voltar para casa, tomar um banho quente e esquecer. Mas parte de mim sabia que ia lembrar daquela mulher. Não pelo sexo, nem pelo cheiro. Mas pelo jeito como ela me olhou no escuro — como quem enxerga o fracasso, mas não vira o rosto para ele.

E talvez seja isso o que a gente procura quando paga por amor: alguém que veja o buraco e diga “eu também tô nele”.

Voltei a andar, devagar, encharcado de mim mesmo. Um velho como eu vive acelerado porque já sente a foice se aproximando. Amanhã será outro dia, cheio de contas, compromissos e esperanças de menos. Mas por algumas horas, eu tinha sido só carne e alma crua.

Porra, mas o que eu havia conseguido naquela noite já é mais do que muitos conseguem. Emparelhei os meus aparelhos auditivos com o celular, deixei a música me ensurdecer e segui em frente. Não havia outra escolha.

DURAN DURAN