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A Lapa, meus nobres, não é um bairro — é um vício. Uma doença venérea da alma. Um ventre obsceno onde a cidade se despe de suas máscaras e se entrega, sem pudor, às entranhas da própria decadência. E eu, homem de hábitos noturnos e pecados diurnos, sou seu filho bastardo e fiel.
Não se vai à Lapa por gosto. Vai-se por fraqueza. Por tara. Por essa necessidade desesperada de ver o mundo como ele realmente é: sujo, lírico e promíscuo. Lá, os homens se embriagam de si mesmos, e as mulheres dançam como quem pede perdão ou vingança — ou ambos.
Há na Lapa uma poesia de puteiro. Um romantismo de esquina mal iluminada. Cada poste, cada bar em ruína, cada travesti com cílios de Cleópatra decadente carrega mais verdade do que toda a Avenida Atlântica num domingo de sol. Os amantes se traem com ternura. Os bêbados choram como heróis trágicos. E os músicos tocam como se tivessem vindo do Inferno direto para uma roda de samba.
Sim, é ali que passo algumas noites. Entre o badalar dos copos e o gemido da sanfona, descubro o que os salões iluminados jamais me mostraram: que a beleza é obscena, que a pureza é mentirosa, e que Deus — se existir — frequenta os becos da Lapa disfarçado de mendigo bêbado.
A Lapa é minha religião e meu bordel, minha penitência e meu milagre. E se um dia eu tiver que ser julgado por minhas escolhas, quero que meu advogado seja um velho sambista de voz rouca e alma sebosa. Porque só ele entenderá que, no fundo, toda a minha existência foi apenas isso: uma tentativa desesperada de ser digno da Lapa.
*****
A boate Up House não é um nome — é uma sentença. Quem entra ali, entra condenado. Não por um tribunal de toga, mas por um desejo que ninguém ousa confessar nem a si mesmo. A fachada é discreta como a vergonha, mas por dentro tudo pulsa: a luz, o cheiro e o tilintar profano do gelo em copos.
Foi ali, naquela câmara de pecado e espelhos mal-intencionados, que a conheci.Paula. A prostituta — a santa invertida. Vestia uma saia curta como um suspiro e falava com a displicência das que desprezam o interlocutor. Não havia promessas. Não houve sedução. Apenas uma troca rápida de olhares e um aceno burocrático.
Subimos sem pressa, como quem vai ao matadouro. O quarto, se é que se pode chamar assim, era um altar de camas desfeitas e lâmpadas escuras que perdoavam todas as celulites. Ela me despiu como uma enfermeira entediada, com gestos práticos, quase maternais. E então fizemos sexo — não como amantes, mas como sobreviventes.
Naquele instante, o mundo deixou de existir. Não havia mais o Rio de Janeiro, nem o Papa, nem a moral cristã. Só havia o ranger da cama, a respiração arfante e o tempo suspenso entre duas carnes que se negavam a sentir afeto.
Saímos como entramos: calados, cúmplices e invisíveis. Mas algo ficou. Um cansaço nos ossos. Uma súbita compreensão de que o amor, quando muito sincero, se disfarça de trepada.
A Up House não é uma boate. É uma metáfora. É onde o homem, nu e suado, encara o que resta de si sem maquiagem. E às vezes, por quarenta minutos e duzentos e cinquenta reais, encontra ali uma espécie de salvação — suja, clandestina e irreversível.