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Ela tinha uma brancura quase cenográfica — uma alvura translúcida, como se tivesse sido talhada em gesso por um escultor apressado. Branca como a neve, fria como o mármore, e — talvez o mais perturbador — sem uma única rachadura por onde se pudesse espiar qualquer resquício de calor humano. Havia algo de inumano naquela pele lisa, como se fosse uma embalagem sofisticada para nada.
Foi num desses dias em que eu, em minha obstinada recusa ao tédio, decidi experimentar o improvável. Entrei no quarto com a disposição gentil de sempre: aquela curiosidade genuína que me faz perguntar sobre a cidade natal, o motivo de estar ali, qualquer faísca que possa acender uma conversa. Nina, no entanto, parecia ter sido treinada para conter incêndios — não para provocá-los.
Ela respondia com monossílabos que soavam como notas fiscais: úteis, protocolares e rigorosamente sem afeto. Não havia ódio naquilo — pior, havia nada. Um nada sólido, uma muralha invisível erguida ao redor de uma presença meramente física. Às vezes penso que a indiferença é mais violenta que o desprezo.
Quando tirou a roupa, sua nudez teve a mesma vibração emocional de uma lâmpada acesa num cômodo vazio. Bonita, sim — seria desonesto negar. Mas havia ali um tipo peculiar de beleza que não convida: apenas informa. Ela parecia ter sido criada para ilustrar um catálogo, não para dividir um momento com alguém.
Deitei ao lado dela e, num reflexo insistente, ainda tentei me enganar. Pensei: “Talvez depois, talvez durante, alguma coisa se revele. Um gesto, um tremor, qualquer mínima fagulha.” Mas o que aconteceu foi exatamente o oposto. A frieza dela era contagiosa, como um inverno que se infiltra nos ossos. Em poucos minutos, percebi que eu mesmo começava a me tornar uma versão pálida de mim — uma estátua disfarçada de homem.
O toque dela — se é que posso chamar assim — tinha a energia de um trapo molhado esquecido sobre uma cadeira. Não havia pressão, nem intenção. Era apenas contato. Aquela pele branca, tão sem temperatura, parecia querer me lembrar que eu era só um corpo. E que, naqueles minutos, não importava se eu tinha sido — ou ainda era — um homem que amava a vida com furor.
Costumo dizer que o prazer pago, quando bem vivido, pode ser tão legítimo quanto qualquer paixão. Mas ali, naquela cama fria, entendi que o oposto também é verdadeiro: há mulheres que, mesmo sendo belas, transformam tudo em burocracia. E eu, que sou um hedonista de alma, um flâneur da pele alheia, não estou equipado para celebrar o nada.
Quando terminou — e aqui uso o verbo com generosidade, pois nada de fato aconteceu —, vesti-me num silêncio que não era constrangimento, mas respeito. Respeito ao abismo que se instalara entre nós, tão extenso que nem minha curiosidade nem minha vaidade ousaram cruzar.
Nina me acompanhou até a porta com o mesmo semblante clínico. Antes de sair, ainda tentei um último contato — um comentário qualquer, uma piada improvisada, qualquer microgesto que quebrasse a monotonia. O sorriso dela foi tão gelado que me deu vontade de rir sozinho.
Enquanto descia as escadas, senti aquela estranha mistura de alívio e frustração que só ocorre quando se é testemunha de um encontro que nunca aconteceu. Lá fora, o calor da rua me pareceu um presente — a prova de que o mundo ainda pulsa, apesar de algumas pessoas escolherem não pulsar.
E assim fui embora: não exatamente arrependido, mas intrigado. Porque, se é verdade que cada mulher deixa uma marca, Nina deixou a ausência mais eloquente que já experimentei. Um vazio tão puro que quase tive vontade de agradecer.
Talvez seja isso, afinal: cada experiência é uma aula. E com ela aprendi que há formas de beleza que, quando se tocam, não dizem absolutamente nada.