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18 de Julho de 2025 às 00:07
A madrugada de quarta-feira em Niterói se arrastava com a umidade e o tédio de sempre, uma combinação que invariavelmente me empurra para os santuários do previsível, os museus de esperanças vencidas. E nenhum lugar encarna melhor essa alma suburbana do desejo do que o Club 177, um puteiro cuja decadência é tão autêntica que chega a ser poética. Atravessei suas portas, recebido pela conhecida sinfonia desafinada de uma jukebox asmática, risadas ensaiadas e o cheiro agridoce de cerveja barata misturado a perfume de segunda linha.
Apesar dos pesares, havia uma busca específica naquela noite, uma palavra-chave que meu tédio sussurrava como um mantra para os algoritmos do acaso: monumentalidade. Eu não procurava apenas um corpo, mas uma topografia, uma paisagem que me fizesse sentir como um explorador diante do desconhecido. E o universo, esse velho cúmplice dos meus caprichos, atendeu. O nome dela era Pérola.
Sua monumentalidade parecia zombar da pequenez do ambiente, uma obra de arte renascentista esquecida no porão de uma loja de penhores, e eu soube, com a certeza de um caçador que reencontra sua presa mais magnífica, que aquela noite ordinária acabava de ganhar o potencial de uma crônica memorável.
Pérola não andava, ela desfilava uma geografia própria. Uma preta colossalmente grande e gostosa, esculpida em ébano e autoconfiança, uma rainha que não precisava de trono porque o mundo se curvava à sua passagem. E a sua bunda... ah, aquilo não era um atributo físico, era um evento. Uma obra de arquitetura barroca, uma hipérbole de carne que fazia meu temperamento romântico e meu desejo mais primitivo entrarem em um raro acordo. A negociação foi breve, quase um detalhe burocrático, pois a verdadeira conversa acontecia no campo magnético que emanava dela.
No quarto, a luz barata parecia se esforçar para contornar suas formas, e falhava. Ela era grande demais para o enquadramento, uma força da natureza que não cabia em quatro paredes. Eu, um veterano de incontáveis batalhas carnais, me senti um noviço. A excitação era a força motriz, a recompensa imediata de uma vida vivida sem freios.
Pedi a ela que se esquecesse do roteiro. Eu não queria o trivial, queria a vertigem. E com um sorriso que revelava uma cumplicidade antiga, como se conhecesse a fundo a fome dos homens, ela entendeu.
Deitei-me, e ela se posicionou sobre mim. O que veio a seguir não foi um movimento, foi um eclipse. Quando aquele rabo gigantesco desceu sobre minha boca, o mundo se apagou. O ar, esse luxo que tomamos como garantido, foi sumariamente confiscado. O primeiro instante foi o pânico do animal acuado, o grito silencioso dos meus pulmões implorando por uma trégua. Mas então, a lucidez afiada sobre a natureza das transações me lembrou que eu havia pago por aquilo. Eu havia desejado aquilo.
E eu me rendi.
Foi uma asfixia gloriosa, um batismo profano. Cada segundo sem respirar era uma eternidade de pressão, calor e do cheiro único de sua pele. O mundo se reduziu a uma escuridão pulsante, onde a única realidade era o peso daquela carne magnífica me selando, me possuindo, me anulando. Não havia eu, não havia ela; havia apenas a intensidade pura, a celebração do excesso. Naquele afogamento, encontrei a plenitude do agora que tanto busco.
Quando ela finalmente se ergueu, o ar que invadiu meus pulmões teve o sabor de uma ressurreição. Eu ri, uma risada rouca, de quem voltou de uma viagem a outra dimensão. Pérola me olhava de cima, não com a frieza de uma profissional, mas com o orgulho de uma artista que acabara de executar sua obra-prima.
Quando desceu e começou a me cavalgar, ela me olhava nos olhos. Não com ternura. Com posse. Com a certeza de quem está no controle e não tem a menor intenção de devolvê-lo. Eu respirava com dificuldade, mas já não por falta de ar — era o peso daquela presença, daquela mulher, daquela energia. Ela não me sufocava apenas fisicamente. Ela me anulava como pessoa. E, de alguma forma, isso era o que eu mais desejava.
— Tá apertadinha? — ela perguntou, com um sorriso malicioso.
Não respondi. Não podia, estava imerso tão profundamente em sua buceta, que fiquei silente.
Ela riu. Um riso grave, quase ameaçador. Depois, começou a se mover. Devagar. Como se cada movimento fosse uma escolha consciente. Cada descida era um ato de poder. Cada subida, uma promessa de volta. Eu não estava fodendo. Eu estava sendo fodido. E havia uma beleza nisso. Uma beleza que eu não sabia que podia sentir.
Naquele momento, eu não era um homem. Eu era um canal. Uma passagem. Uma oferenda. E ela era a deusa, o altar e o sacrifício. Pérola não me dava prazer — ela me roubava. E eu entregava tudo com um sorriso nos lábios e os olhos fechados, como quem reza sem saber rezar.
E foi ali, naquele cenário de fim de festa, no epicentro da decadência, que encontrei a mais pura e honesta manifestação do sublime. Pérola, indiferente à sordidez do ambiente, transformou aquele metro quadrado de abandono em um palácio, provando que a verdadeira intensidade não precisa de luxo, apenas de verdade.
Quando terminou, ela se levantou com a elegância de uma rainha que abandona o trono por um instante. Eu fiquei ali, deitado, olhando para o teto como se ele tivesse a resposta para o que acabara de acontecer.
Ela se virou para mim, ainda nua, ainda imensa, ainda tudo.
— Foi bom pra você?
E eu, com a dignidade que me restava, respondi:
— Foi como se eu tivesse sido abduzido por uma civilização superior. Eles me devolveram, mas não me devolveram inteiro.
Ela riu de novo. E eu soube que, mesmo que eu vivesse mil vidas, nenhuma delas seria capaz de me preparar para a próxima vez com Pérola.
Pérola me deu o que eu buscava: não um orgasmo, mas uma história. Uma cicatriz deliciosa na memória. Alguns buscam a salvação; eu me contento com a intensidade de cada vivência. E naquela noite, sob o peso monumental de Pérola, eu fui salvo da banalidade mais uma vez.
A paixão vivida, mesmo que paga, é uma vitória. E aquela, meus amigos, foi uma vitória esmagadora.
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